A crônica do Alexandru Solomon


Momento Cultural

Testemunho do autor.

Foi uma noite - refiro-me à do lançamento de “O desmonte de Vênus” difícil de esquecer. Digo isso, pois a lembrança daquele frio boreal dá para arrepiar até almas menos sensíveis que a deste escritor. Tudo funcionou com a precisão de um relógio suíço - nada a ver com as imitações com as quais os camelôs assediam inocentes transeuntes na paulicéia e outras metrópoles. Para os distraídos, reitero tratar-se do lançamento do “O desmonte de Vênus”- dizem os especialistas em marketing que o risco de saturar o leitor existe, mas vale a pena arriscar. Arrisquemos, pois, para fixar a imagem do produto.

Devo fazer uma confissão. Em eventos como esse, a preocupação do herói do dia - da noite, vá lá - fica dividida entre a atenção, o carinho e as demonstrações (genuínas) de agradecimento aos abnegados que se dispuseram a comparecer e a contabilização mental das "baixas" - aqueles “infames traidores”, cuja ausência adquire proporções de imperdoável felonia. Caramba, fulano não veio! A frase, na qual basta colocar o nome do "traidor" - traidor é um eufemismo, já que os epítetos destinados aos ... - bem , não vamos exalar veneno, são, quase sempre impublicáveis - martela a mente e dá lugar às eternas dúvidas. "Não vieram porque não puderam ou porque o que escrevi não presta? Poxa, e como ficaram sabendo se não leram?" Esse conflito entre autoflagelação e autocomplacência esgota as energias do distribuidor de dedicatórias. Junte-se a isso o fato da minha obsessão em evitar fórmulas do gênero: "Ao caro (pode ser distinto, dileto, dedicado etc.) amigo, com um abraço (abraço é essencial e politicamente correto) do autor." para entender o cansaço após o agradável reencontro com figuras amigas.

Àqueles que me prestigiaram, meus agradecimentos e aos demais o convite: "Leiam esse “Desmonte” antes que se torne best - seller. Aí já não sentirão a alegria de ter descoberto um talento consagrado pelo fino gosto daqueles que se anteciparam à critica habitualmente tão cega (míope, para ser menos agressivo). Ficarão apenas com o prazer da emoção estética sem a satisfação própria do pioneiro desbravador da selva literária".

***

Vejam bem. A intenção, ao enviar o tal testemunho do autor - terá sido lido até o fim? - não era cutucar amigos. (embora assim possa parecer). Fico angustiado com a postura dos livreiros. Por exemplo, lancei esse "O desmonte de Vênus" na Saraiva do Shopping Higienópolis. O evento foi "uma reussite totale", marcado pela venda de algo como uma centena de livros.

Depois de uma semana, resolvi dar uma passada na livraria - o criminoso voltando ao lugar do crime - e perguntei qual era o paradeiro da “obra”, já que não estava exposta. (nem ao menos numa estante que fosse requerer esforços de contorcionista para localizá-la). Resposta despreocupada do vendedor e do gerente, cuja presença foi solicitada :”Está no estoque”. Ou seja, num cubículo infame, na sobreloja, longe dos olhares ávidos dos eventuais leitores. Não só isso, tem mais. “Estamos recontando para... devolver à editora, e, doravante, quem quiser poderá acessar nosso sítio (ou site, se preferirem). Pergunta que não quer calar: De que jeito algum visitante daquele supermercado - esse altar da cultura não passa disso, a rigor, inclusive com práticas dos Carrefours da vida, quanto a exigências em nome de uma "parceria" que funciona num sentido só - poderá ter, ao menos, a possibilidade de tomar conhecimento de que existe AS e sua (*dele AS) imperecível obra. Se me der na telha, poderia recomprar a edição inteira; e daí? para recolocá-la em livreiros que me escondem? Sabotagem? Incompetência? A lei do menor esforço na sua forma mais repulsiva? Algumas palavras de alguém que se desse ao trabalho de fazer uma resenha, com o risco – aceito - de ser demolido pelo crítico atenuariam o drama? Mencionei a Saraiva, mas trata-se de uma postura geralmente adotada pelas melhores casas do ramo, com variações insignificantes. O destino do “Triângulo” não foi diferente. Então para que fazer um lançamento dentro de uma livraria? Para que o livreiro fique com a parte do leão? Poderia ser em qualquer espaço. Dirão que o evento poderia atrair curiosos - não há falta deles em livrarias e com mais razão em Shoppings. Pasmem. Nos últimos três lançamentos: ”O desmonte...”, “O triângulo...” e “Não basta sonhar”, nenhum ’distraído’ – e não faltaram cartazes - teve a ousadia de comprar. Tempos bicudos! Explicação fraquinha desse desagradável fenômeno, não?

Desde sempre, disse que meu desejo é tornar-me conhecido como escritor. Não serão os amigos abnegados que conseguirão realizar essa proeza. Talvez deva ter mais amigos. Meio tarde para isso. (esse papo do Roberto Carlos “Eu quero ter um milhão de amigos” não convence). Sinceramente, fico constrangido ao “empurrar” trabalhos de cujos méritos chego a duvidar à medida que o tempo passa.

Resta-me perguntar, como o fez o goleiro Ghezzi do Milan, quando da surra aplicada pelo Santos, num inesquecível espetáculo - que misturou o ludopédio com o pólo aquático -, em pleno Maracanã: “Che succede?”

Em tempo! Àqueles que queiram dar uma “espiada” nesse “Desmonte”, entrem no site da editora (www.totalidade.com.br). Eis o convite a boa leitura - com a modéstia da palavra, claro!



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 15h37
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