A crônica do Alexandru Solomon


Faixa de pedestres, refúgio virtual

 

Dizem ser o futebol uma caixinha de surpresas. A vida, também.

Para não fugir dos cânones consagrados pelas mais reputadas oficinas literárias, vamos localizar a ação no espaço e no tempo. Cabe também informar tratar-se de história real. Em sendo assim, toda semelhança com pessoas reais é absolutamente intencional.

Tudo começou e terminou minutos depois, por volta das 10 horas da manhã de terça-feira, dia 10 de março, no cruzamento das ruas Maranhão e Itacolomy.

Trajava eu imponente terno, por causa de um compromisso social - esses compromissos para os quais a beleza interior perde em importância ante a embalagem. No cruzamento, havia um fluxo de carros, bem como de pedestres. Imagine, caro leitor, pouco familiarizado com o local, duas fileiras paralelas de carros, descendo a rua Itacolomy, em direção à avenida Higienópolis. Caminhava eu tranquilo e resolvi atravessar, fato comum na vida de qualquer ser humano desejoso de alcançar a calçada oposta. Atravessar, dizem, é uma das formas conhecidas de passar de uma calçada para a outra. Minha intenção estava me levando na mesma direção dos carros, porém no sentido oposto. Eis uma bela ilustração da diferença entre direção e sentido, que ofereço, graciosamente, aos autores de manuais didáticos. Não aos que colocam dois Paraguais no mapa.

Ao abrir o sinal, o motorista da fila da direita - a mais distante de mim - “fechou” o carro da fila da esquerda e, zelando pelo próprio bólido - um Meriva insignificante, antes fosse BMW, pela beleza da coisa - acelerou e fez a conversão. Diria que não se tratou de manobra aplaudida pelo nosso Código de Trânsito, mas trata-se de vulgar mito refiro-me ao Código - assim como a tal invulnerabilidade do pedestre na faixa a ele destinada...

Munido de minha calma proverbial, mesmo tendo intuído as más intenções do carro ou de seu condutor - no caso uma infeliz, minha educação proíbe-me usar outros termos bem mais incisivo - continuei meu atravessar majestático. Se saísse correndo, feito vulgar trombadinha, nada teria ocorrido. Estaria sem assunto e sem dores. Acelerei um pouco, por via das dúvidas. Ela, também, movida por misteriosos desígnios.

Vendo o perigo, esbocei uma corridinha.

Em vão! Troppo tarde, diria Dante! Talvez Pirandello dissesse o mesmo se chamado da dimensão na qual reside para comentar a cena..Too late!

Fui colhido e arremessado para o alto feito vulgar pacote no centro de distribuição dos Correios.

A lei da gravidade fez o resto.

Bati no chão. Minha musculatura perfeita, meus 65 anos (claro, aparento bem menos, não?) e minha caixa torácica levaram a pior. Faltou a voz tranqüilizadora: Ao asfalto voltarás!

Não me lembro muito bem dos detalhes da queda, mas de algo me recordo com exatidão. Veio-me a mente a lembrança do pugilista João Henrique, que por quatro vezes tentou a coroa mundial na sua categoria, perdendo nas quatro oportunidades. Duas vezes de Bruno Arcari, uma, de Nicolino Locce e a quarta, bem, podem procurar no Google! Anos depois, vitimado por um desastre numa batida de ônibus na Dutra, ele ajudou a retirar as vítimas e... pouco depois morreu de hemorragia interna. Embalado pelar recordações pugilisticas, levantei, de pronto, sem esperar que a contagem chegasse a 10, e dirigi-me para a sucessora da Lella Lombardi - aquela da F!.

Ela havia parado, diga-se a bem da verdade. Uma jovem senhora, no esplendor de sua idade indefinida, algo em volta daquela consagrada por Balzac. Fiz uma pergunta idiota, mas considerando o susto pelo qual acabara de passar, mereço alguma indulgência:

- Como pode fazer uma coisa dessas, indaguei com meu fleuma britânico, sempre presente em tais ocasiões..

- Desculpe - viu, viu.... quem disse que não há modos no trânsito? - não o vi. Só faltava ter dito que se tratava de uma tentativa de aumentar a renda per capita do Brasil - iniciativa salutar nesses tempos de marolinha exagerada - através da diminuição do denominador da fração.

Lancei um olhar desolado para meu terno - algo fora de combate - porém a decepção cedeu lugar a uma onda de incontido júbilo. Sim, senti uma imensa satisfação interior: meu regime de emagrecimento surtira efeito. Mesmo às 10 da matina, eu era praticamente invisível.

Juntou-se um bando de curiosos. Algo desapontados com a falta de dramaticidade da cena, afastaram-se logo em seguida. Permaneceram os protagonistas do incidente, bem como a motorista do veículo que levara a tal “fechada”... Um coro de buzinas, vindo de seres igualmente apressados e insensíveis encurtou o diálogo tão rico em plasticidade.

Fiquei com os dados da Senhora M.M - seria senhorita?- e com a promessa de que ao menos os danos materiais seriam cobertos. Não valia a pena esperar sentado - ou deitado - a vinda da Polícia com as chateações inerentes à feitura de um B.O.

Até hoje, decorridos oito dias, tanto a senhora M.M - vamos preservar-lhe o anonimato, por enquanto - quanto o advogado dela, esquivam-se com maestria.

Sobra a pergunta que não quer calar. Qual a possibilidade de tal evento suceder em Paris, Roma, ou Brasília? Onde está a educação no trânsito? Prometi uma pergunta e formulei duas. Peço perdão.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, é autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar` e o recente livro/peça ´Um Triângulo de Bermudas`. (Ed. Totalidade). Confira nas livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br), Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Laselva (www.laselva.com.br) e Siciliano (www.siciliano.com.br).| E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 09h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


cela va sans dire.

Metáforas

 

    Após ter sobrevivido a um atropelamento, – prova disso é que redijo essas linhas – participei de uma importante reunião na qual um economista merecedor de apreço dissecou a conjuntura econômica. De imediato reparei ser ele mais um dos adeptos das metáforas para interpretar o atual apuro. Assim, para descrever as medidas necessárias para sair do presente enrosco, afirmou estarem nossas autoridades diante de uma maratona, não de uma corrida de 100m rasos, querendo com isso dizer ser imprudente sair a plena velocidade e decidir atabalhoadamente, já que se trata de uma prova longa. Ninguém na platéia indagou se o tiro de largada já havia sido dado, ou apenas, anunciado.

Por que seria maratona e não uma prova de 3000m com obstáculos, o palestrante não esclareceu. Pena, porque essa prova de steeplechase, por alternar corridas e saltos tem mais a ver com a atual quadra.

Essa inocente mania de imaginar que a complexidade do assunto precisa de uma ilustração virou mania nacional, fruto da globalização, cela va sans dire. Será que nas platéias preponderam atletas e não seres dispostos a assimilar afirmações, sem o suporte de imagens tiradas da vida comum?

Desde há muito, firmou-se o conceito de serem os executivos seres ocupados, além de um tanto limitados, contudo esforçados em assimilar rapidamente informações complexas – sem tempo para perder com conceitos áridos – com o auxílio de figurinhas, como as bobagens do indefectível Power Point?

E por que minsistir com maratonas? Como participante de 52 provas desse tipo, hei de reconhecer que a metáfora faz algum sentido, embora jamais tivesse participado de uma competição de 100m rasos, ou de 100m com barreiras, para poder melhor assimilar o tropo. É grande a quantidade de desmaios depois de qualquer uma dessas provas, vale dizer. Esse ponto em comum fragiliza aparentemente o impacto oratório do famigerado recurso.

O renomado economista não está só. Edgar Allan Poe já dizia que uma metáfora fortalece um argumento, embelezando a descrição. Todavia, Kundera adverte: “As metáforas são perigosas. Todo amor começa com uma”.

Há inúmeras possibilidades, uma vez decretado o ‘liberou geral’ das metáforas.

Nosso ilustre presidente Lula, pilar do moderno pensamento ocidental, falou em marolinha e, de imediato, veio o complemento dessa imagem sugestiva, com nossa empedernida e valorosa oposição afirmando tratar-se na verdade de um tsunami. Ah, bom! Falar em ressaca pecaria pelo duplo sentido.

Continuando nessa linha infantil, não custaria dizer que esse combate à crise, marolinha, recessão etc., tudo tem de uma luta de boxe a ser decidida por pontos, sendo o nocaute uma feliz, embora remota possibilidade. Collor, morador da casa da Dinda, falava em ippon. Grande Collor! Levou um Osoto-gari e o resto já é sabido.

Poder-se-ia dizer que os ativos tóxicos necessitam de um purgante institucional, já que os laxantes proporcionados pelo FED não foram suficientes, e dar graças a Deus ter ocorrido o episódio Lehman Brothers a tempo para evitar que os pacotes criativos tivessem saído da nossa alfândega. Era só uma questão de meses, digam o que quiserem Aracruz, Votorantim, Sadia e outros criativamente apressados!

Não poderá faltar o futebolês – viva o ludopédio – para se afirmar que é necessário um forte sentido de equipe para se alcançar a vitória. Ou que é preciso de um bom meio de campo para se impor ao fim da peleja. Que tal falar na utilidade dos ‘coringas’ – metáfora de segundo grau, uma vez que antes da Economia, o futebol a tomou emprestado dos jogos de cartas – para executar as tarefas inerentes à solução dos graves problemas conjunturais. Um amador de palavras cruzadas estará pronto a concordar que é preciso achar a palavra correta para preencher o 45 vertical – Austeridade fiscal. ( por que diabo fui falar em 45?)

Um biólogo não se dará por satisfeito enquanto não se mencionar o levantamento do código genético da crise. Sem contar que um simples caixa de banco poderá discorrer sobre a importância de fechar o caixa diariamente – coisa que muito banco nem sempre consegue, para evitar problemas.

Antes de mencionar a opinião de um farmacêutico, para o qual o importante é fornecer a remédio correto, ou na falta dele o genérico (obrigado, José Serra), diria que o terreno é extremamente fértil.

Demonstrou-o o renomado Dr. DOOM, Nouriel Roubini – meteorologista nas horas vagas, ao que tudo indica – que já falava em procela em tempos menos bicudos. Quanta plasticidade nos seus dizeres, citados sem muito rigor por este escriba: “Quando o paciente está na UTI, importa salvá-lo, para depois explicar-lhe as vantagens de uma alimentação sadia e da atividade física”.

Tudo isso para concluir que a palestra que presenciei foi interessante e que ficou claro que na minha próxima maratona, dia 5 de abril, não devo sair feito boi bravo.

Ironias de lado, a palestra foi muito boa, embora tenha se mantido na atmosfera rarefeita (pronto, critiquei, critiquei e apelei também para uma metáfora) das generalidades, quando talvez, aos presentes, teria agradado mais saber qual o rumo do barco Economia Brasileira (que coisa, outra metáfora!).

Aos sobreviventes desse naufrágio econômico (decididamente, é difícil falar sem metáforas), as batatas – de acordo com a famosa dieta do Bruxo do Cosme Velho, mais conhecido como Machado de Assis – mesmo se a batata em questão estiver quente.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, é autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar` e o recente livro/peça ´Um Triângulo de Bermudas`. (Ed. Totalidade). Confira nas livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br), Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Laselva (www.laselva.com.br) e Siciliano (www.siciliano.com.br).| E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 09h04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


Categorias
Todas as mensagens Crônicas Política Poesia



Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Uniblog do Alexandru Solomon
 Blog do Alexandru Solomon Terra
 Mundo Mulher
 Guia Assis - On Line
 Moda&Beleza
 Charges Diogo Salles
 Revista Fator Brasil
 Editora Totalidade
 Jornal da Paulista