A crônica do Alexandru Solomon


 
 

Conversa (des)afinada

Fábula sem moral.

 

· Revelações de um antigo manuscrito, encontrado por um arqueólogo amador. A autenticidade do documento suscita profundas controvérsias no mundo acadêmico. A hipótese de tratar-se de um documento apócrifo têm uma legião de partidários. Vamos ao papiro, ainda em excelente estado de conservação, antes que seja confiscado.

 

 

Num reinado, onde em se plantando, tudo dá, o bobo da corte está fazendo anotações num caderno... Não para de escrever. Está concentradíssimo. O bobo-adjunto faz graçolas que, por vez, arrancam um sorriso real. O bobo-adjunto sonha tornar-se , um dia, o bobo-pleno.

· – O que escreve aí, companheiro bobo? – pergunta – intrigado – o monarca Lulix I, o gaulês. O queixo do monarca treme – sinal de profunda impaciência. Os olhos majestáticos emitem relâmpagos no espectro ultraviolento.

· – Anoto os nomes dos tolos do reino. A propósito, acabei de colocar o nome de Vossa Majestade nessa relação... com todo o respeito que jamais me faltará.

· O queixo do monarca quase cai. Mal consegue reprimir a fúria que o acomete. O crime de lesa-majestade está tipificado.

· – Mas que ousadia, verme imundo! Antes de mandar açoitá-lo, até seu lombo sangrar, esquartejá-lo ou atirá-lo num calabouço de onde jamais sairá com vida – ainda não decidi – pergunto-lhe qual o motivo dessa insolência? Já é um bobo estável no emprego. Quer perdê-lo, ficar sem o fundo de garantia? – a voz tonitruante da Majestade indignada faz vibrar os cristais do lustre do palácio real. Cesse tudo que a antiga musa canta, quando essa voz se alevanta. Um bardo caolho, de passagem, acha bonita essa parte e jura em sottovoce aproveitar essa observação.

· O bobo faz uma profunda reverência e retruca, pálido ao perceber o quanto irritou o rei, arrasado pelas negras perspectivas quanto ao seu futuro próximo. Finalmente articula:

· – O motivo é simples: Vossa Majestade entregou o Ministério X ao seu súdito, o Sr. Z da chamada base aliada. Ele vai roubar até cansar, se é que roubar cansaria o Sr. Z. Fraudar e roubar é só começar.

· – Jamais prejulgue, serviçal indigno! E se não roubar, miserável fofoqueiro? Chega de dar ouvidos às maledicências do PIG! Por acaso grampeou as ligações telefônica do impoluto Sr. Z? Sua função – consta no job description, homologado pelo ISO – é divertir-me. Repito a pergunta: E se ele não roubar (ou pelo menos se o malfeito não for comprovado, por ser bem feito)? Responda, candidato à forca!

· – Nesse caso retirarei o nome de Vossa Majestade e colocarei o dele...

A partir desse ponto, o manuscrito torna-se ilegível

 

· ***************

 

... A substituição dificilmente acontecerá, dizem as más línguas.

 


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 11h49
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Conversa (des)afinada

Consultoria.

 

Um frisson (mais um) percorre a espinha dorsal da Nação. Será o ministro Fernando Pimentel culpado da vilania que vozes açodadas lhe imputam primeiro em surdina, e já em inconveniente crescendo? Estariam com razão aqueles que encontrarem semelhança com a famosa ária de Don Basilio: La calunnia è um venticello? Ou, deixando Rossini de lado, teria o atual ministro recebido uma remuneração por trabalhos sem ao menos (em dois casos) haver contratos que formalizassem termos e condições da prestação de serviços, substituídos pelo tradicional fio de bigode? A FIEMG utilizou efetivamente esses trabalhos de que seus associados precisavam? Dramatizando, seria ele o próximo ministro a cair? Por enquanto, Sua Excelência não pode ser acusado sem haver provas. Mas no caso presente, como no clássico exemplo da mulher de Cesar, é preciso além de ser honesto, parecer sê-lo.

Caso o ministro FP tenha prestado realmente consultoria, nada mais fácil de comprovar – lembrando que recolher IR sobre dinheiro recebido não significa ter sido a renda tributada resultado do trabalho de consultor solitário. Bastará mostrar os belos volumes encadernados nos quais Sua Excelência destilou sua perícia, no período de ‘quarentena’ em que a excelência limitava-se à qualidade do trabalho intelectual, colocado em dúvida por integrantes do detestável PIG. Na ausência desses vistosos cadernos, bastaria um (ou mais) pen drive. Palimpsestos poderiam ser aceitos, afinal, vale sempre a ‘última forma’.

Caso os trabalhos sejam confidenciais, por exemplo, um plano de contingência na hipótese de um tsunami em Minas, indique-se uma pessoa isenta – parece que ainda existem dois ou três exemplares em vida –, ou uma comissão com algum preparo para dizer à Pátria aflita: Os trabalhos existem e fazem sentido. Não será necessário responder à pergunta: Valeram o dinheiro gasto? Será desnecessário porque não existe uma tabela de custos de exprefeitofuturoministro/hora.Quem assistiu O belo Antonio, haverá de se lembrar da cena do lençol nupcial.

Caso os trabalhos estejam no padrão – Nos trechos com neblina, use farol alto – com um pouco de cara dura, será possível dizer: Pagaram porque quiseram. Ninguém os obrigou.

Se não surgir algo ‘muito ruim’, tudo indica que o Sr. Ministro estará mais tranqüilo que a superfície do lago Baikal, em pleno inverno.

É isso aí.

 


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 15h48
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Concurso

Talentos da maturidade

 

   O concurso Talentos da maturidade, promovido pelo Banco Santander, que o herdou do banco Real, chegou ao fim. Participei na modalidade literatura, e devo ter me colocado em algum lugar entre o sexto e o milésimo - já que apenas 5 trabalhos por modalidade foram premiados.

Como comentário final, não vejo motivo para que a competição se restrinja a participantes ao menos sexagenários. Lembro-me bem da minha contrariedade aos 59 anos por não poder participar. Não se trata de uma prova atlética, então por qual motivo segregar por idade? É o tipo de discriminação positiva que não acrescenta muita coisa. Só falta imaginar concursos literários para deficientes auditivos ou para pessoas acima (ou abaixo) de 90 quilos. Concordo que um peso mosca não deva subir no ringue para medir forças com o George Foreman. Mesmo hoje, correria o risco de levar uma pancada com a famosa frigideira - o que seria melhor do que um soco vindo dele. No entanto , no caso de um concurso literário, isso não faz sentido. Não vejo com simpatia esse tipo de convite tipo 'canto do cisne', ou "eles ainda tem muito para contar".O QUE NÃO É O CASO, NEM A INTENÇÃO DOS ORGANIZADORES - suponho. No Cid de Corneille há a réplica famosa: La valeur n´attend point le nombre des années....o valor ( no sentido que o autor quis dar) não espera a idade. Surgiu, posteriormente, uma variante engraçada " La valeur ne craint point le nombre des annés" - ou seja, o valor não teme a idade.

Li depoimentos emocionados de pessoas agradecendo a oportunidade de participar, como se a partir dos 60 todas as portas estivessem fechadas, menos essa. Como diria o filósofo contemporâneo Paulinho da farsa, seria esse um certame de 'gagás'? Levante a mão quem achar que sim.

Uma vez escrevi a respeito das exclamações bobas do tipo...."ele tem apenas 7 anos e já...".com a recíproca 'ele tem 72 anos e ainda...' .Fiquem a vontade para substituir as reticências com tolices que seguramente já devem ter ouvido.

Isso quanto à filosofia da competição. O modus operandi não merece críticas, apenas elogios.Prova disso é a quantidade de participantes, o que deve ter tornado infernal a tarefa dos jurados.

Como sugestão- impossível não dar palpites, mesmo que seja de um perdedor -:Que tal publicar uma classificação geral, já que todos os trabalhos ao passar pelo crivo dos jurados levaram uma nota, ou se o critério tenha sido parecido com o modelo empregado atualmente na Fórmula 1, houve peneiradas sucessivas, até chegar à última.

Muito grato e (quem sabe) até a próxima edição!

 

Os interessados em conhecer meu conto A luta continua poderão acessar o site www.talentosdamaturidade.com.br, ou aguardar meu póximo volume de contos.

Alexandru Solomon, escritor



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h42
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In pianto e riso, è menzognero

Verdade, mentira...

 

Temos uma Comissão da Verdade. Este fato provocou acalorados debates e negociações, resultando um produto cuja utilidade somente poderá ser avaliada após ter cumprido a missão que lhe foi designada. Não há de minha parte a intenção de adotar uma posição radical favorável ou contrária a essa Comissão. Aguardemos os resultados. Obviamente, faz sentido questionar o horizonte de tempo que se propõe analisar, indagar por qual motivo ficaram de fora períodos importantes de nossa História antes e depois do momento histórico que ficará sob a lupa de um comitê de sete ‘notáveis’. A pergunta: “por que não a partir de – por exemplo – 1930?” ou “por que não até hoje?”, ou ainda “ por que esse tratamento hemiplégico da verdade”, não poderá encontrar outra resposta a não ser uma platitude: Os vencedores escrevem a História.

A revogação de fato ou de direito das leis da anistia em maior ou menor grau em toda a América Latina poderá reabrir antigas feridas. Resta saber se será possível falar num resultado positivo dessa medida.

Na vizinha Argentina está “no forno” a proposta de redesenhar alguns perfis de políticos. Esse processo estaria fundamentado numa adaptação da realidade que satisfaça a visão da presidente Cristina Kirchner em contraposição àquilo que gerações aprenderam, isso porque para a presidente do país vizinho, até agora prevaleceu a visão de vencedores em diversos momentos históricos. Exagerando, será que reescrever manuais históricos influirá o futuro da Argentina?

 

 

O caso brasileiro nem de longe chega a esse extremo. Aparentemente, o que se pretende é lançar uma luz – que se quer objetiva – sobre o período em foco. Portanto não se tem – em tese – a intenção de chegar a extremos como as “revisões” praticadas na antiga União Soviética, ou nos seus satélites, quando personagens considerados heróis passavam, sem maiores explicações, à categoria de vilões, tendo seus nomes apagados dos manuais de História e seus retratos eliminados de fotografias oficiais – bem antes do advento do Photoshop. Revanchismo? Talvez. Derrubar estátuas de Stalin, depois das revelações de Hruschov (nada de Kruchev) foi a conseqüência visível do surgimento de uma verdade soterrada por longos anos.

A História está repleta de “mentiras”. Somente numa perspectiva histórica será possível determinar as estaturas reais, a ‘verdadeira grandeza’ de perfis públicos. Historiadores empolgados, ou alinhados com os poderosos do momento, bosquejaram retratos que não resistiram ao tempo. As camadas embelezadoras e/ou suas contrapartidas negativas desapareceram, mas esse é um processo que leva décadas ou séculos. Até esse ponto, D. João VI continuará uma nulidade bulímica, Robespierre será o ‘incorruptível’, Pôncio Pilatos será um vitorioso preocupado com a limpeza de suas mãos, e José Sarney... bem, o tempo dirá, ou será que já disse?

Para períodos curtos, prevalecerá a ‘lei de Goebbels”, segundo a qual uma mentira repetida tende a se tornar verdade. Entre nós, a contestação de algumas dessas ‘verdades’ é rotulada de “desespero de reacionário”, ou produto do PIG. Contestar ‘verdades oficiais’ recebe o nome de “tentativa de golpe”, “moralismo udenista” etc.

Mas o que é mentira? Seria apenas uma afirmação contrária à verdade a fim de induzir a erro, ou um juízo falso. Parece ‘pobre’ a idéia de definir mentira a partir do que ela não é. Vale a pena refletir com que objetivo uma proposição mentirosa deturpa a realidade. Ou ainda se a proposição falsa resulta de uma falta de conhecimento ou foi formulada com propósito defensivo. Algo como “Não é o que você está pensando, querido”. Mentiras como essa, assim como o pintor Toulouse Lautrec, têm pernas curtas. “Sem mentiras, a verdade morreria de tédio e desesperança” sentenciava Anatole France.

“Querida, seu vestido está um sonho”, ao invés de “esse vestido a deixa como uma salsicha” não deixa de ser uma agressão voluntária à maneira de ver de um marido que está preocupado em não chegar tarde no jantar promovido pelo “chefão”. Convenhamos, é uma mentira, mas é algo inofensivo assim como “esse corte de cabelo foi um achado” ou “adoro o lombo que minha sogra prepara”. Vamos nos indignar com o filho que afirma com o rosto lambuzado de chocolate nos disser: “Mami, foi o Abner (o cachorro do casal) que comeu a torta”? De forma alguma, uma vez que umas palmadinhas poderão nos tornar réus aos olhos de uma lei de méritos discutíveis.

Não entram nessa categoria: ”terei de preparar a revisão do orçamento e chegarei tarde” e muito menos: “nós não roubamos nem deixamos roubar”, tão em voga. Nesse último caso, é possível dizer que a orientação política é uma inimiga muito mais acerba da verdade que a mentira que resultou.

Então, só nos resta dizer, a exemplo de Pablo Neruda que: “A verdade é que não há verdade”?

A discussão corre o risco de se alongar perigosamente ao invadirmos o terreno pantanoso das omissões. Deixar de mencionar um fato, movidos por dolo, seria mentir. “Jamais menti, mas confesso que já deixei de contar toda a verdade”. Esse é o CEP do perigo. Ou, é aí que mora o perigo. Isso sem contar que contar de maneira proposital somente uma parte da verdade é dar mostra de má-fé.

Não é sem motivo que se pode afirmar que duas meias-verdades não compõem uma verdade inteira.

Ao afirmar que é preciso dourar a pílula, Baltasar Gracián assim se referiu à verdade: “Ela é perigosa, porém o homem de bem não pode deixar de dizê-la”.

Serão nossos políticos “homens de bem”?

 


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 16h34
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Maratona, Fidípedes e TSA

Peripécias irrelevantes

 

Somos – sem exceção – humildes atores ensaiando uma peça cujo final nos é totalmente desconhecidos. Ainda bem. Estou de volta depois da minha 21ª maratona de Nova Iorque. Mesmo sem saber o que nos espera prefiro referir-me a essa prova como sendo a mais recente. Falar em última seria carregar nas tintas do pessimismo, mesmo porque o final da peça à qual me referi acima não me foi revelado.

A corrida em si foi, como sempre, aquele evento maravilhoso. Mesmo sendo minha 61ª maratona – considerando meu currículo inteiro – a emoção se fez presente. Como não pretendo falar na corrida, direi que meu desempenho não foi dos melhores e poderei alinhar uma série de “circunstâncias extenuantes” para justificar o resultado: um joelho avariado (apesar de ter sido operado por um dos papas do joelho), um estiramento na coxa da outra perna, o que me fez mancar das duas pernas e uma gripe com a qual fui contemplado na antevéspera da prova, com direito a presença de médico etc. e tal.

Enfim.

Nada como viajar, rever lugares conhecidos e arriscar incursões em novos espaços. Mas para tanto é preciso chegar lá. E para chegar precisa ensaiar alguns passos do samba do crioulo doido – se é que a tribo do politicamente correto me permite assim dizer. Para acalmar censores implacáveis retiro o crioulo doido e o substituo por afrodescendente com problemas neurológicos. Pronto.

Confesso que devido às vendas espetaculares dos meus livros, viajei em classe executiva, affaires, business class, ou dito de outra maneira, em classe antieconômica – mesmo com o risco de levar a pecha de fomentador da luta de classes, conceito grouchomarxista que não me seduz.

Pois bem. Com o crescente rigor, presente em todos os aeroportos, para embarcar é preciso passar por um controle rigoroso. No moderníssimo aeroporto de Guarulhos, apinhado de gente, mesmo sem estar em plena Copa do Mundo – já sei, estamos nos preparando e tudo corre de acordo com o cronograma – foi preciso enfrentar uma fila para o controle de passaportes e passar pela intransigente inspeção de bagagens de mão. Macaco velho – ou seria mais adequado dizer primata provecto? – não estava carregando nenhum objeto que pudesse ser usado para seqüestrar a aeronave. Nada de cortador de unha, frascos contendo mais de 100ml de qualquer substância líquida, enfim nada...

De forma algo paradoxal, descobri que os talheres usados para as refeições a bordo eram de metal. Nada de passar um cortador de unhas, em compensação facas de corte afiado, com as quais poderia... Vá entender!

A volta foi ainda mais engraçada, já que as medidas de segurança no JFK são ainda mais rígidas – claro que depois os talheres são os mesmos.

Por um motivo que não conseguiria explicar resolvi embarcar com meu monitor de freqüência cardíaca, cuja marca não declinarei, uma vez que a Polar não remuneraria esse tipo de merchandizing. Os leitores do meu imortal Um triângulo de bermudas, bem como todo atleta de fim de semana sabem que há um relógio incrementado e uma faixa colocada sobre o peito que permite monitorar os batimentos.

Tive de, a semelhança do então embaixador Celso Lafer, tirar os sapatos e o cinto e passar por uma engenhoca que ‘scaneou’ meu corpo cansado, bem como as vestes autorizadas. Retirar e recolocar os sapatos são atos que requerem um certo equilíbrio ou na falta deste uma cadeira. Maratonista dispensa cadeira. Dediquei um pensamento enternecido ao NOSSOEXPRESIDENTE (se o Canard Enchainé sempre se referiu a De Gaulle como Mongénéral, por que não Nossoex? Não me canso de repetir) que desde sempre se insurgiu contra esse procedimento, proferindo a inesquecível frase: “Ministro meu não tira os sapatos”. Não sendo ministro, cumpri docilmente a exigência.

Eis que um empregado da TSA – transportation security administration – aproximou-se de mim, e polidamente pediu para me apalpar. Se o gesto poderia ser classificado de assedio ou não, fica a critério do leitor. Em seguida, decretou. “O senhor está usando um dispositivo no peito”. Disse-o num português rudimentar, mas à la guerre, commme à la guerre. Retruquei tratar-se de um sensor, o que em nada o acalmou. Levantei a camisa, gesto pelo qual fui gentilmente repreendido pela ‘otoridade’. Percebi o quanto essa forma impensada de agir poderia ter ferido o pudor anglo-saxão, mas já era tarde. Dezenas de retinas já haviam sido ofendidas. Mesmo assim, o fiador da segurança aeroportuária parecia alimentar dúvidas. Provavelmente passou-lhe pela cabeça que estaria eu interessado nas 72 virgens prometidas aos mártires que andam se explodindo, e insistiu: “para que serve isso?”. Fato sabido: quanto menor o grau hierárquico de um funcionário, maior a propensão a criar enroscos.

Foi quando me lembrei de um filme maravilhoso: Amici miei, no qual por diversas vezes o inesquecível Ugo Tognazzi, quando confrontado com um interlocutor incômodo, saia-se com uma frase delirante. Algo assim: “Supercazzola prematurata a la seconda com scapelamento a destra”, tudo dito com uma velocidade de fazer inveja a um locutor esportivo.

Imediatamente recitei: Sofro de variações da freqüência cardíaca que eventualmente pode alcançar níveis considerados perigosos e ao detectar tal fato tomo de imediato um betabloqueador.

Funcionou. Fui liberado e tive, finalmente, direito aos talheres de metal que em nada comprometem a segurança das aeronaves, diferentemente dos perigosíssimos cortadores da lâmina dura, formada de queratina, que recobre a última falange dos dedos das mãos e dos pés – segundo define o Houaiss.

 


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Crônicas
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 15h11
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Lixo declaratório

Juntar números não significa apresentar um estudo

 

   “Os números falam por si”. Eis um lugar-comum que mereceria um complemento: “desde que corretamente organizados”. É o caso das matérias apresentadas pelo Estadão na página B4 do caderno Economia de 17/10/11.

Um exemplo clássico, vindo do século passado ilustra o ponto. Nos anos de inflação galopante havia uma ‘constatação’ – correlação espúria – : à medida que aumentava o número de gols de Pelé a inflação avançava. Obviamente, as duas sequências de dados nada tinham em comum, e a ninguém passou pela cabeça pedir ao Pelé que, em nome do combate à inflação, parasse de marcar gols. Posteriormente, essa ‘teoria’ afundou. Pelé pendurou as chuteiras e a inflação continuou firme e forte até o advento do Plano Real.

“Assalariados pagam mais IR que os bancos”, diz a matéria do Estadão.

Ilustrando essa “distorção tributária”, o leitor é informado que o IR/trabalhadores no período set/2010-ago/2011 foi de R$ 87,6bi, enquanto os bancos recolheram R$ 36.3bi considerando IR, Cofins, Pis/PASEP e CSLL.

O que se pode concluir? (diga-se de passagem, essa afirmação não é nova, sendo até objeto de estudos acadêmicos).

 

 

Nada. Provavelmente, as pessoas físicas (assalariados, profissionais liberais, artistas etc.) devem ter recolhido mais IR que a indústria petrolífera, ou que a indústria siderúrgica, fato que aparentemente causa menor indignação no articulista, a ponto de não merecer menção. Da maneira que os números estão apresentados, é impossível verificar qual a participação de salários e de honorários, ganhos de capital, aluguéis etc. De qualquer maneira, parece um equívoco misturar assalariados com pessoas físicas em geral. A conclusão do artigo ilustra um outro ponto: É possível chegar a uma conclusão correta a partir de observações desconjuntadas.

De fato, ninguém poderá contestar que: “Não basta o Estado bater recordes de arrecadação...”

A seguir um outro artigo ilustra a “imparcialidade” tão necessária ao se examinar um problema. Diz a manchete “Setor financeiro tem benefício de R$ 26 bilhões”. Ah, os miseráveis – seria a primeira reação. Uma leitura do texto mostra que a objetividade se faz rara nesses dias.

Um estudo do Sindifisco mostra que um benefício previsto na legislação brasileira, que mais contribui para que os bancos recolham menos imposto é a permissão para remunerar sócios e acionistas por meio do pagamento de juros sobre o capital próprio. Ah, os infames!

O sítio da Receita informa: “Os juros pagos ou creditados, a título de remuneração do capital próprio devem ser tributados exclusivamente na fonte à alíquota de 15%, na data do pagamento ou crédito. O imposto retido não pode ser compensado na Declaração de Ajuste Anual.”

De fato, as pessoas físicas, dependendo do montante de sua renda tributável chegam a pagar 27,5%, mas esse não é um benefício direto do setor financeiro.

Ocorre que o pagamento de juros sobre o capital próprio é uma prática que não beneficia unicamente os bancos, fato que o articulista não procurou informar, justo hoje quando no Estadão na página A2 aparece um excelente artigo, Jornal, qualidade e rigor, no qual o autor, Carlos Alberto Di Franco, frisa a importância de as matérias jornalísticas se diferenciarem pela qualidade da informação, análise etc. “Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.” Esse é o caminho.

 

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 15h04
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Conversa (des)afinada

win win

 

Num final de tarde particularmente bonito, com os raios de sol incendiando o céu, o Gafanhoto decidiu que estava na hora de visitar o Mestre, ao qual devia migalhas de saber, cujo efeito era tornar menos opaca a ignorância na qual vivia mergulhado. Bem sabia que na condição de um dos “mais bobinhos da turma”, tudo que lhe restava fazer era abeberar-se na fonte do saber.

Ao chegar perto da entrada da caverna – lugar geométrico tradicional dos gurus – sentiu-se algo inseguro, mas logo superou esse sentimento. Encontrou o Mestre sentado na posição de lótus, mirando com fixidez um ponto indefinido, onde as retas paralelas costumam se encontrar.

– Seja bem-vindo.

– Desculpe minha intromissão. Sei que interrompê-lo na sua meditação irá me valer pontos negativos na avaliação final, mas computando o framework risco x retorno, decidi arriscar.

Audaces fortuna juvat. A fortuna sorri aos audaciosos – em tradução livre. Aproxime-se.

O Gafanhoto lançou um olhar circular – aprendera que um olhar elíptico poderia causar distorções na percepção – mas tudo que viu não passava de um ambiente austero; as paredes nuas da rocha escavada, um cartaz “Proibido fumar”, a pilha de livros de há muito tempo intocados, tudo mergulhado na fumaça originada pela queima de incenso. Tossiu. O Mestre, também.

– Mestre, venho a pedido de um amigo, conselheiro de investimentos, e antes de tratar dos meus assuntos, gostaria de lhe encaminhar algumas perguntas. Teve direito ao mutismo do Mestre, que tanto poderia significar encorajamento, quanto a mais profunda reprovação. Decorridos intermináveis segundos, o Mestre decidiu apiedar-se:

– Tentarei ajudar, mas há uma condição. Depois farei também uma pergunta, para avaliar o quanto assimilou.

– Mestre, sei que a Petrobrás está construindo uma refinaria em Pernambuco.

– Já lhe disse que uma pergunta jamais poderá ser feita na forma de uma afirmação. Un maestro de mi categoria e fuerza jamais faz concessões.

– Perdão, ainda não cheguei a pergunta.

– Seja objetivo, Gafa!

– Essa refinaria é necessária?

– Naturalmente, sabe que apesar de ser auto-suficiente em petróleo há mais de quatro anos, o Brasil importa derivados, sendo a balança comercial negativa nesse particular.

– Como assim?

– O valor gasto com importações é maior que a receita de exportações.

– Mas é auto-suficiente.

– Gafanhoto, sempre haverá um critério segundo o qual chegamos à conclusão desejada. Por exemplo: Você me acha magro?

– Sim. Até evitei mencionar o fato. Parece muito magro.

– Errado, Gafanhoto. Sou é muito alto. Se medisse uns trinta centímetros a menos com o mesmo peso, você me acharia obeso, a medida do meu IMC seria maior que 25.

– IMC?

– Índice de massa corporal, Gafanhoto. Não está familiarizado com o uso de siglas?

– Sim, conheço algumas. PAC, FMI, COPOM... Então a refinaria é necessária?

– Não costumo mudar de opinião tão rapidamente. Não é nem questão de coerência que seria a virtude dos imbecis.

– Perdão. Soube que, para esse, a Petrobrás receberá um financiamento de uns R$ 10 bi do BNDES, parte de um pacote maior. Mais uma sigla.

– Veio me comunicar isso?

– Não, mestre. A pergunta é: Depois de uma capitalização de 70 bilhões de dólares, isso era necessário?

– Gafanhoto, o plano de investimentos da Petrobrás para o período 2011-2015 é de mais de 220 bilhões de dólares. O lucro líquido para esse período será de digamos 20-25 bilhões de dólares anuais. Mesmo com a empresa se desfazendo de alguns ativos, falta dinheiro para cumprir esse plano.

– Entendi.

– Não entendeu, Gafanhoto. Se continuar com essas interrupções nada entenderá. Nunca! Daquela capitalização – a maior do mundo, cantada em versos e prosa ufanista – uns 40 bilhões de dólares já foram gastos. A Petrobrás comprou 5 bilhões de barris a U$ 8,51 cada.

– A empresa ficou com medo que esses barris se evaporassem?

– Não, Gafanhoto. Mas é sempre bom garantir o direito de explorá-los.

– E a Petrobrás tinha esse dinheiro?

– Você não entende nada. O governo entrou com esse dinheiro que a Petrobrás usou para fazer a compra, de modo que no balanço, ao invés de Caixa ela tem os barris. Mas rápido em conta como o conheço, já viu que não sobrou tanto. Sem contar que o governo apurou uma receita com essa venda, que serviu para vitaminar o superávit primário.

– O Governo tinha esse dinheiro, para capitalizar a Petrobrás?

– Tinha... ou emitiu papel, fez dinheiro e o recebeu de volta. Entendeu?

– Ah. Que governo inteligente!

– É uma pergunta?

– Não, Mestre, é uma exclamação.

– Exclamações não requerem respostas.

– Então, voltando à refinaria Abreu e Lima, a Petrobrás associou-se à venezuelana PDVSA. Está vendo, mestre, mais uma sigla.

– Veio para me impressionar com seu conhecimento de siglas, Gafanhoto?

– Sei que jamais conseguirei impressioná-lo, Mestre. Mas voltando à pergunta, que não tive oportunidade de formular. Essa associação é boa?

– Boa para quem, Gafanhoto?

– Aprendi no curso de doutoramento que um negócio tem de ser bom para ambas as partes. Tem de ser win, win.

– Está grasnando sem razão, gafanhoto. Por que não diz ganha, ganha? Vamos pensar. Numa associação ambos os sócios investem na proporção acordada. Nessa refinaria, cujo custo não para de subir, a Petrobrás entra com 60% e a PDVSA com...

– 40%.

– Sua habilidade numérica não encontra paralelo no mundo inteligente. Já pode tentar uns testes psicotécnicos para ascensorista do Senado. É a última interrupção que tolerarei hoje. Recapitulando. O custo da refinaria, depois de triplicar em relação á estimativa inicial está, por enquanto, em uns 26bi de reais. Por enquanto, a Petrobrás cacifou e a PDVSA apenas reclama da lentidão. O presidente da Venezuela até disse que ‘há setores da Petrobrás que não gostam’, mas ele pretende resolver esse assunto quando falar com “sua amiga Dilma”.

– Isso mesmo. Foi o que li no Estadão. Mas por que será que esses setores não gostam, Mestre, se for verdade o que Chávez disse?

– É que até agora, com 35% do projeto completados a PDVSA não colocou nenhum tostão. Não me pergunte como se chegou a 35% e não a 33,8 ou 38,1%. Não é o momento de falar em algarismos significativos. É apenas um ballpark.

– O que?

– Uma aproximação.

– E por que a PDVSA não investiu ainda?

– Boa pergunta. Como dizia o grande Carl Herrmann[i], responda você mesmo!

– Não quis se precipitar. Ou não tinha.

– Correto. Daí a PDVSA pretende levantar um empréstimo com o BNDES. Somos parceiros. Como você disse, Gafa, quen,quen!

– É win, win, mestre!

– Que seja!

– Ah, com nosso dinheiro? E o BNDES emprestará?

– Para não sair mal na foto, o BNDES exigiu garantias, essa bobagem típica de banqueiro – saber se receberá de volta o dinheiro.

– Para uma empresa do porte da PDVSA apresentar garantias é difícil?

– No caso deles levou meses, até que conseguiram duas cartas de fiança cobrindo R$ 4 bi. Uma delas relativa a 1bi é do BB. – Também conheço siglas. Para os outros R$ 3 bi veio uma carta de fiança do BES português – um banco tradicional com quase 150 anos de vida.

– As cartas chegaram apesar da greve dos Correios?

– Gafanhoto, olhe o respeito!

– Então, a PDVSA não tinha dinheiro para investir, precisou de financiamento do BNDES e parte das garantias foi dada por um banco brasileiro?

– Tudo em casa, Gafa! Somos uma grande família!

– Então o projeto receberá o aporte da PDVSA?

– Por enquanto, não, mas isso deverá acontecer, assim que eles verificarem quanto já se investiu para poder pedir ao BNDES o correspondente a 40%, isso acontecerá. Fazem muito bem querer verificar. Não vão torrar dinheiro à toa.

– Então é um bom negócio?

– Chega de perguntas. Seus assuntos ficam para um outro dia. Agora é a minha vez. Pense e responda. O que é azul, está numa árvore e assobia?

– Não sei.

– Pense, Gafanhoto!

Ma langue au chat. Desisto.

– É o presidente da Petrobrás.

– Por que azul?

– Porque assim o pintei.

– Por que fica numa arvore?

– Porque lá o coloquei

– Por que assobia?

– Foi para dificultar, Gafanhoto!

O Gafanhoto agradeceu e saiu. Uma lufada de ar gelado o fez estremecer. Caminhou, tentando entender a razão da pergunta do Mestre.

 

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 11h51
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´´Um negócio imperdível, salvo melhor juízo``

A PDVSA apresenta garantias para refinaria.

Finalmente, a PDVSA apresentou duas cartas de fiança no valor de R$ 4 bilhões, como garantia ao BNDES para a participação na construção da refinaria Abreu e Lima. ( O Estado 4/10 B8)

É o momento de utilizar o linguajar CVMês padrão:

“Os termos "antecipa", "acredita", "espera", "prevê", "pretende", "planeja", "projeta", "objetiva", "deverá", bem como outros termos similares, visam a identificar tais previsões, as quais, evidentemente, envolvem riscos ou incertezas previstos ou não pela Companhia. Portanto, os resultados futuros das operações da Companhia podem diferir das atuais expectativas, e o leitor não deve se basear exclusivamente nas informações aqui contidas.”

 

 

Dessa maneira, ninguém poderá dizer que esse texto é capcioso.

“Acredita-se” que o custo atualizado da refinaria seja de R$ 26 bilhões, sendo esse valor algo como o triplo do inicialmente projetado. O acordo firmado entre Suas Excelências Lula e Chávez previa que a participação venezuelana seria de 40%. Esse percentual foi o resultado de intensa negociação.

Agora, a boa notícia.

O BNDES aprovou as garantias, e as apresentará à Petrobrás. Pergunta óbvia: O que tem a ver a Petrobrás com o uso que o BNDES fará do dinheiro? Perguntará ao BNDES se tem certeza que vai emprestar à PDVSA, ou que receberá o dinheiro de volta no prazo pactuado?

Uma notícia morna: As cartas de fiança apresentadas atestam que o português Banco do Espírito Santo cobrirá 75% do valor e o ‘nosso’ BB o restante (25%). Ou seja, a PDVSA receberá RS 4 bilhões do BNDES, com um quarto disso garantido pelo BB. Além de entrar com um petróleo de pior qualidade, fato que “deverá” encarecer a obra, o que fará a PDVSA, além de cobrar através de Chávez maior espírito de colaboração da Petrobrás, onde de acordo com o presidente venezuelano “há setores que não querem o acordo, assunto que será tratado com “minha querida Dilma”?

A má notícia: Se o custo for de R$ 26bi, como se “antecipa”, a parte da PDVSA seria um pouco maior que os RS 4bi que o BNDES emprestará. Calma, a PDVSA , por enquanto “objetiva” cobrir apenas 40% dos custos incorridos até agora. Depois... “prevê” integralizar o restante. Não haverá problemas, mesmo porque a obtenção das garantias atuais foi bem rápida – alguns meses de tensas negociações. Evidentemente há “riscos envolvidos”, mesmo nesse negócio entre irmãos. Não cabe analisar de quem são os riscos, embora a resposta seja óbvia.

De qualquer maneira, até a PDVSA fornecer seu quinhão de petróleo, “antecipa-se” que o BNDES financiará também a parcela restante da PDVSA. Não cabe discutir a relação BNDES Petrobrás, porque tudo estará em casa. Talvez, um ou outro minoritário da Petrobrás questione. Problema dele.

O que se pode “prever”, a curto prazo, é uma longa discussão para identificar o quanto já se gastou, para determinar o valor dos 40% venezuelanos – sem necessidade de CPI. Chávez não é tolo!

Como as condições do financiamento do BNDES não devem ser escorchantes, o projeto se pagará com relativa rapidez e a PDVSA poderá “planejar” quitar o empréstimo, com o resultado da empreitada, e sobrará apenas uma pergunta:

Para quê essa parceria, já que em breve o pré-sal, além da discussão sobre o pagamento de royalties, estará produzindo à toda, a OGX do empresário Eike deixará de produzir apenas “fatos relevantes” e poderá vender parte de sua produção de petróleo à refinaria Abreu e Lima, sem contar a HRT e outros produtores menores? Depois de assentada a poeira, a PDVSA ficará com 40% do resultado de exploração e... poderemos, mais tarde, imaginar que ela ‘pretenda’ reviver o “episódio Itaipu”.

Seria temerário “acreditar” que sem grandes gastos – não limitados apenas ao custo das cartas de fiança –, a PDVSA “deverá’ se tornar sócio na proporção 40/60 da mais moderna refinaria da América do Sul?

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 11h44
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´´Floresce o preconceito.``

Abaixo a lingerie!

 

Céus, o que fui escrever! Os caçadores de segundos sentidos – normalmente, aqueles que nem o primeiro conseguem identificar – devem estar indignados. Um pouco de calma!

Tudo começou com o comercial da HOPE. Se não houvesse tanto alarido, confesso que provavelmente não teria assistido a essa famosa propaganda. Agora, o mal está feito, graças ao YouTube sei tudo! Em resumo, para aqueles que ainda não sabem, e morrem de curiosidade, trata-se de três peças publicitárias – confesso envergonhado que só vi uma. Numa, Gisele Bündchen aparece primeiro vestindo roupas ‘normais’, avisando um interlocutor oculto – mesmo se aparecesse, suspeito que não mereceria o mais distraído dos olhares – que acabou de bater o carro. Reprovando essa estratégia, a agência publicitária apresenta a alternativa ‘correta’. Gisele aparece com o ‘uniforme ‘ da grife e dá a mesma informação. Essa é a maneira recomendável de acordo com o anúncio.

Em suma, uma mensagem bem-humorada.

Certo?

Errado! Pelo menos é o que pensa a SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres, ligada à Presidência da República. De acordo com o Estadão, a Secretaria alega ter recebido “reclamações de indignação” (sic). Parece que existem diversos tipos de reclamações, sendo as de indignação as mais poderosas. A Secretaria enviou ofícios – ao Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar), solicitando a suspensão da propaganda, bem como a companhia, manifestando seu repúdio.

Na visão da SPM esses comerciais reforçam “o estereótipo da mulher como objeto sexual do marido e ignoramos avanços alcançados”.

A SPM descarrilou em nome do ‘politicamente correto’. O próximo passo será, quem sabe, insurgir-se contra a Lisistrata de Aristófanes, e sua greve do sexo – se bem que uma ‘ala progressista’ possa encontrar méritos na apologia da greve. Bem, em 400 a.c não havia greve. É de conhecimento de todo leitor do opúsculo que revela ao mundo que “os menino pega os peixe”, que o nome deriva de uma praça de Paris – Place de Gréve –, de cuja existência Aristófanes, salvo grotesco anacronismo, não tinha a mais vaga idéia.

Por que essa digressão? Voltemos à Lisistrata. Na comédia homônima, ela e algumas amigas, atenienses, espartanas, beócias etc., insurgem-se contra a guerra, e para demover seus maridos dessa empreitada insensata, decidem negar-lhes ‘seus favores’, como se dizia uns séculos atrás, cultuando um doce eufemismo. Não bastasse isso, Lisistrata convenceu as amigas a desfilar com roupas transparentes e... melhor não prosseguir na enumeração dos detalhes. Caramba! Há mais de dois mil anos estratégias iguais à da Hope eram colocadas em prática. O que fazer? Banir também essa peça “para desconstruir práticas e pensamentos sexistas”. Naquela peça encontramos uma frase que mostra que houve falhas em “orientar, fiscalizar e controlar” o autor. Diz ele, por intermédio de uma das personagens: “Quando não estão pensando em um homem é porque estão pensando em vários”. Um horror! E mutatis mutandis, isso estaria acontecendo também com os sátiros desejosos de aplacar sua concupiscência. Aristófanes não rebaixou a mulher, apenas ressaltou um trunfo, cuja validade ainda não expirou. Até o PROCON concorda.

Assediados que somos por peças de humor grosseiro, na programação televisiva, deparar-nos com esse tipo de crítica não leva a nada.

A situação descrita é cômica. Se não consegue provocar o riso, ao menos fez sorrir inúmeras pessoas, menos aquelas acometidas da tal indignação. O homem é um animal que sabe rir, sustenta Bergson, citando outros filósofos. Apesar de ele ter se doutorado pela Universidade de Paris e não por Sciences Po, vale dar-lhe um crédito. O que provoca o riso são exatamente cenas insólitas como essas que tanto incomodaram a SPM.

Decerto seria deselegante, para não dizer injurioso, aludir a essa iniciativa como sendo originada por pessoas “de evolução intelectual prejudicada” – para ficar no terreno do politicamente correto. Como não estou pretendendo ser acusado de injúria, mesmo que isso possa ajudar na promoção dos meus livros, melhor moderar os termos e optar por caracterizar essa iniciativa, como tendo partido de pessoas desprovidas de senso de humor.

Acredito piamente que uma peça bem-humorada não fere o status conquistados pelas mulheres. Todos sabem que na última sessão da ONU o discurso inaugural foi proferido por uma mulher. A ninguém ocorreria imaginar Madame Curie de calcinha e sutiã. E mesmo se alguma mente pervertida se deixasse seduzir por essa imagem, não seria a partir disso que a lingerie da Hope estouraria em vendas.

É lamentável que haja desperdício de energia e oratória por parte de um órgão ligado à Presidência da República, procurando intenções malévolas naquelas propagandas. Sem contar que o efeito provável será o contrário. A audiência vai ‘bombar’.

 

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 11h02
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Conversa (des)afinada

Divagações macroeconômicas.

 

 

Não é preciso ser ‘do ramo’ para opinar. Tanto isso é verdade que nossa constelação ministerial é composta de ilustres figuras que – com as exceções de praxe (raras, para sermos justos) – pouco ou nada entendem do riscado. Há uma réplica famosa na peça Knock de Jules Romains: “Tout homme bien portant est um malade qui s´ignore”, o que numa tradução aproximada daria algo como “ todo ser saudável não passa de um doente que ignora seu real estado”. Então, por que não estender o conceito afirmando que todo ser humano é um economista sem sabê-lo. Como Monsieur Jourdain de Molière, que fazia prosa sem saber, tendemos a ser economistas ‘involuntários’.

Estamos de acordo quanto a estarmos no meio da marolinha 2.0? Parece não haver dúvidas a respeito. Os ativos tóxicos não foram ainda reciclados, e mesmo sem termos convivido com aberrações sub-prime – por sorte, a crise eclodiu antes que eles fincassem raízes por aqui – nosso vigoroso crescimento de 7,5% de 2010 (em cima de uma base deprimida, correspondente a uma queda do PIB em 2009), não está prestes a se repetir. Não é o que sustenta Sua Excelência o ministro Mantega, que defende com unhas e dentes a hipótese de um crescimento maior que 4% em 2011, repetindo as palavras de Sua Excelência a Presidente da República. Ou será o contrário? Pouco importa. Indiferente a essas manifestações ufanistas, o Fundo Monetário Internacional reduziu em 0,3 ponto percentual a projeção de crescimento do Brasil, para 3,8% neste ano. De acordo com as previsões, o Brasil terá o segundo menor crescimento da América do Sul, ficando atrás somente da Venezuela e abaixo da média da região. O relatório prevê que o país crescerá menos que a média dos países sul-americanos, informa a CBN.

Antes de amaldiçoar os arúspices do FMI, iludindo sua hipótese pessimista, parece sensato aguardar o transcorrer dos poucos meses que faltam para o fim do ano. Fazer previsões, especialmente sobre o futuro, é uma operação de risco.

Diante das ameaças da conjuntura externa, o COPOM decidiu cortar a SELIC. A medida foi aplaudida, por colocar em xeque os ’juristas’ – partidários da manutenção dos juros altos para segurar a inflação, segundo uma definição bem-humorada. Outros torceram o nariz. Segundo O ESTADO não fomos os únicos a ousar. Estamos em companhia da Armênia, Tunísia e Sérvia, cujos PIBs somados não devem fazer cócegas ao nosso.

Seria temerário associar essa medida à alta do dólar? Talvez. Pelo menos, exportadores respiram aliviados. Quanto aos importadores. Bem, não é possível contentar todo mundo. Pagaremos mais caro por inutilidades típicas do consumo suntuário. Veblen deve dar boas risadas. Mas pagaremos mais caro pelo trigo que importamos. Coisas da vida. Seria atrevimento tentar determinar o resultado final disso tudo. Mexer num painel cheio de botões luminosos deve exercer uma grande atração. Como dizia aquele filósofo cego: veremos mais tarde.

Para combater a invasão chinesa – uma economia de mercado, de acordo com nossos hábeis diplomatas – aumentamos o IPI dos carros importados. É uma forma de competir. A ninguém ocorreu baixar o IPI dos nacionais? Abrir mão de arrecadação, não, nunca, never, jamais!

Pior, em volta, as chamadas economias maduras estão fazendo água, em busca de uma solução. Generosos – e megalomaníacos – até propusemos aplicar parte de nossas reservas em títulos de economias titubeantes. Não bastam as fantasias do nosso FSB (o tal fundo Só berrando) com aplicações pesadas nos aumentos de capital da Petrobrás e BB e as conseqüentes perdas? Sejamos maluquinhos e “apliquemos nosso suado dinheiro das reservas em papel de alto risco”!

Em artigo recente, (NY Times 18/9) Paul Krugman fala da cura através da sangria, solução em voga no passado da Medicina, cujo efeito era debilitar ainda mais o paciente. Segundo Krugman esse erro está se repetindo na área das economias devastadas, com tristes conseqüências. A Grécia que o diga. Mas esse é outro problema.

Num outro artigo publicado em 2009, Krugman menciona o paradoxo da parcimônia. Não precisa folhear Keynes, basta dar uma lida no bom Samuelson. Basicamente, é importante poupar, mas se uma grande comunidade começar a poupar, deixará de consumir, a demanda por bens cairá, a economia encolherá e a poupança terá sido inútil, ou até danosa. Peço desculpas por essa interpretação superficial.

Então, a solução não passa pelo aperto de cinto, ou pela sangria? Os gregos estariam sofrendo inutilmente?

Chegamos a um ponto interessante. O Brasil optou, em 2008-9 pelo incremento do consumo, e enfrentou com sucesso a crise. Dirão alguns que havia capacidade ociosa na indústria, mas pouco importa. Nessa frente, entraram pacotes de crédito e investimentos (PAC e outros). Aparentemente, nada a dizer. Ocorre que os ‘gastos virtuosos’, chamêmo-los assim, vieram junto com despesas de qualidade duvidosa, pelo seu viés populista. Algo contra reajustes salariais generosos? Apenas o fato de eles serem inflacionários quando superiores aos ganhos de produtividade. Resultado: uma inflação que ameaça se portar mal. Não se trata de estarmos por alguns meses além do sacrossanto teto da faixa de tolerância da meta. Como diria NOSSOEXPRESIDENTE: passou da risca da área é pênalti, mas talvez o juiz não veja. Não se trata de afirmar que 6.5% de inflação é suportável e 6,6% equivale a uma tragédia nacional. O problema é acordar o dragão e sua fiel amiguinha a reindexação. No caso, quem preocupa, não é Batman e sim, Robin.

 

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 10h46
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Momento Cultural

PLATAFORMA G

do escritor Alexandru Solomon

 

   O livro PLATAFORMA G é uma peça teatral. De linguagem bem descontraída traz a história de dez jovens que procuraram abrigo numa casa de campo, fugindo de uma pandemia. As 13 integrantes da Plataforma G contam histórias durante uma única tarde, sob a liderança de Glorinha, aguardando a visita de um personagem misterioso. Essas histórias sofreram o efeito de um inevitável aggiornamento. Se Glorinha estiver certa, o relacionamento entre os seres humanos já está repertoriado à exaustão. Cabe ao leitor julgar o acerto dessa assertiva.

Boa leitura!

 

O autor Alexandru Solomon recebe o cumprimento do professor Aroldo, durante o lançamento da Plataforma

 

O autor e o livro

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade) e ´Bucareste` (Ed. Letraviva).

Onde econtrar

Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Martins Fontes (www.martinsfontespaulista.com.br), Galileu(www.livrariagalileu.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br)



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h18
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Um horror moderno

Como deixar de ficar fulo da vida?

Dia 9/8, lancei meu livro Plataforma G na livraria Saraiva do Shopping Higienópolis. Decorridos 3-4 dias, alguns amigos retardatários foram e esse templo da cultura, para comprar a ´masterpiece`. Resposta: Está no computador, mas não o temos aqui fisicamente... Droga! (Costumo ser educado nessas circunstâncias – a exclamação foi outra, para ser sincero).

Como esse tipo de baixaria não é inédito – quero dizer que já me aconteceu, e imagino não ser o único premiado com esse tipo de atitude ´empresarial`, liguei para a diretoria da Saraiva para tirar satisfação. Na maior cara de pau o distinto interlocutor (o que não estava em reunião) disse que ´depois do evento` , os livros são devolvidos à editora. E se alguém quiser comprar o chef d´oeuvre? Pergunta natural, não? Resposta: ´´ele encomenda e receberá dentro de alguns dias``. Simples assim! Como é que isso não me ocorreu? Imagine um simples ´fils de pécore et de minus`, como cantava George Brassens, a procura de um presente para o sobrinho! Privá-lo da oportunidade de topar com a Plataforma G – que tristeza! Oh, dó!

Caramba, o autor não se chama Dan Brown. Como é que um incauto freqüentador do ´antro` terá a chance de saber que essa obra imortal existe? Que dizer, folhear? Fui mais fundo e perguntei: Qual o valor agregado por vocês num evento patrocinado, no qual não gastaram 1 centavo sequer? A troco do quê ficam com metade do valor de capa? Pergunta indiscreta e desnecessária, uma vez que já conhecia a resposta:

´´Ah, nos cedemos o espaço``. Bonito!

Ou seja, se eu quisesse, poderia fazer esse lançamento na Joalheria Dryzun? Numa doceira do Shopping, no estacionamento?

O indivíduo prometeu examinar o caso, e, como das outras vezes, o livro estará presente por uns dias e depois, I am sorry! Isso na melhor hipótese. Corram, pois! Não há um minuto a perder!

Disgusting! Para a próxima peça, já no prelo, terei de imaginar outra coisa.

Falei mal da Saraiva, mas TODOS OS GRANDES agem da mesma forma! Falar mal dos suplementos culturais dos nossos jornais, quem há de?



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h06
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Momento Cultural



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h30
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Conversa (des)afinada

O PIG esse inimigo oculto.

 

   No seu excelente artigo “Quem são mesmo os porcos nesta história?”, José Neumanne analisa, dentro das limitações de espaço do Estadão, a ‘era da faxina’, marcada por demissões, afastamentos e oportunas entradas em férias. Essa onda purificadora decerto arrancará, cedo ou tarde, do nosso sempre loquaz ex-presidente, constatações do tipo: “Com tantas contusões, fica difícil escalar o time”. Afinal, com sua aguda percepção, e a inabalável adesão às metáforas futebolísticas, Sua Excelência resumiu o embate situação x oposição nesses termos lapidares: “Nesse jogo, os que estão no banco torcem para que o titular quebre a perna” De fato, o atual Dream Team sofre perdas que dificilmente poderiam ser lamentadas, mas estão criados vazios nos organogramas. Esses vácuos atraem o olhar rútilo do pessoal da fila de espera, que agita as senhas e entoa palavras de ordem. A base aliada – outros preferem grafar alugada – entra em ebulição.

O despertar da cobiça é apenas um efeito secundário, mas sempre digno de menção. Por enquanto, as perdas – a exemplo de certas gordurinhas – estão localizadas, nem vale a pena citar a localização. Ou vale? Está bem. “Por enquanto”, foram detectados indícios de podridão numa área restrita. Nem é possível afirmar, embora, um ou outro possa ter um palpite mais forte, se estamos diante de uma jazida, um lençol ou apenas ocorrências esparsas. Tampouco merece crédito a teoria segundo a qual os malfeitos estariam circunscritos no feudo do PR. É possível assumir sem enormes riscos a hipótese de estarmos diante de uma ‘província’ da corrupção. Uma espécie de pré-sal. Debaixo de uma crosta, blindagem segundo alguns, haveria uma verdadeira festa. O potencial das reservas imorais seria aterrador – falando sempre no futuro do pretérito, nada de acusar sem provas.

O que fazem os suínos no título? Simples. O autor alude ao rótulo PIG (Como todo aplicado aluno de Inglês sabe, trata-se de porco vivo. Jamais confundir com Pork) A rigor, não há novidades no texto. Estamos “carecas” de saber” que há falta de decoro em doses cavalares, embora dificilmente possamos avaliar, com alguma precisão, a extensão da praga que devasta a moral e as finanças públicas. Seria necessário efetuar novas ‘perfurações’ para ter um retrato completo. Falar em ‘doses cavalares’, talvez seja exagero. Falemos em doses para pôneis. Não vale a pena aprofundar a pesquisa, uma vez que, cedo ou tarde, determinado ex-ministro haverá de colocar os pingos nos is. José Neumanne dá nome aos bois – não que haja surpresa, já que todos eles se tornaram conhecidos nesses últimos 15 dias. Dados os nomes aos bois, localizou-se também o estábulo de origem. A Presidente está realizando uma enorme tarefa, mistura de dois trabalhos de Hércules: Derrotar a Hidra de Lerna – cujas cabeças renasciam depois de cortadas – e limpar os estábulos do rei Augias.(coincidentemente estes nunca foram limpos durante 30 anos, vejam que coincidência!)

Qual é o mérito do artigo?

Está claro que é preciso reconstituir sempre, obstinadamente, à exaustão, os passos dos meliantes – nomeando-os –, sob pena de sobrar, com o passar do tempo e a ocorrência de ‘novas proezas’, apenas uma vaga lembrança de um malfeito sobre o qual a nomenklatura joga uma insistente e persistente cortina de fumaça. Sabemos como isso pode terminar: As denúncias são desqualificadas, os acusados são contemplados com o status de vítimas, não sei, não vi, tudo não passa de uma farsa, é tudo obra do PIG (Partido da Imprensa Golpista). Essa sigla repetida ad nauseam pode levar os menos informados a acreditar que estamos na iminência de um golpe. A legião dos aduladores do “mago metalúrgico’ não precisa de evidências. Acredita piamente e espalha. Já que falamos em PIG, por que não falar em PBL – Partido dos Blogueiros Lacaios, PSCV – Partido dos Sem Coluna Vertebral? No governo do PT fica clara a tendência de tentar fazer prevalecer as versões sobre os fatos. Por isso é tão importante repetir aquilo que os inconformados já sabem e os subservientes fazem questão de ignorar. Há níveis de sujeira que o discurso daqueles que “não governam apenas por um terço da população”, segundo modestamente afirmam, não consegue encobrir.

Para todas as trapalhadas, com ou sem corrupção, o PBL contra-ataca. Tome-se um caso recente. A tentativa precipitada – o eufemismo cabe – do BNDES de participar do projeto Carrepão. As penas-pagas já têm a resposta na ponta do mouse. “Ora, e no caso da ´Privataria` (o termo já está dicionarizado), o BNDES financiou empresas e nem ao menos recebeu de volta”. Como se fosse possível definir previamente quem iria quitar ou não os financiamentos. Para isso existem garantias, e se forem mal escolhidas, castigue-se quem as aceitou. O BNDES não é uma organização ingênua, tanto é que não aceitou as garantias de Chávez para o projeto da refinaria Abreu e Lima. No entanto, colocar no mesmo patamar varejistas e empresas integrantes da infraestrutura é forçar a barra. Mas é uma bela tentativa, sobretudo em conversas que logo se transformam em invectivas, quando o nível da gritaria, medido em decibéis tenta fazer prevalecer o engodo. Excesso de decibéis não acrescenta credibilidade, mas isso é apenas um detalhe.

Pode ser que isso não seja suficiente e que, ao fim e ao cabo, a gritaria não resolva.

Nesses casos, surge uma resposta padrão a qualquer acusação: “Isso não é novidade (já estamos de saco cheio dessa história de mensalão que nunca existiu), informações requentadas, disputa de terceiro turno, tentativa de desestabilizar o governo e finalmente, tentativa de GOLPE. Diria um químico: Qualitativamente até pode ser, a corrupção não constitui novidade, mas quantitativamente, pelamordedeus!

 

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` e ´Bucareste`, contos e crônicas (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



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Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h24
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Conversa (des)afinada

A imprevidente Previdência

“As previsões são do governo: em 2011 o déficit previdenciário de 950 mil funcionários públicos vai somar R$ 50 bilhões e o de 28 milhões de trabalhadores privados, R$ 40 bilhões. Ou seja, para zerar os dois déficits, 190 milhões de brasileiros já começaram a pagar, este ano, em média, R$ 4.386,00 por mês para cada funcionário aposentado ou pensionista e R$ 120,00 por mês para cada trabalhador privado segurado do INSS”. – Escreve a jornalista e professora Suely Caldas. E continua: “O ministro da Previdência, Garibaldi Alves Filho, anunciou que enviará ao Congresso um projeto que reduziria o déficit do INSS, de janeiro e maio deste ano, de R$ 17,8 bilhões para R$ 8,9 bilhões. Como? Devolvendo a cada ministério setorial as isenções previdenciárias que concederam a empresas e entidades filantrópicas por décadas. A proposta do ministro só tira o peso das costas do INSS, transferindo-o para cada ministério (Educação, Saúde, Desenvolvimento Social e até Fazenda), mas não acrescenta um centavo à receita tributária, porque não elimina as isenções”.

 

 

A solução do ministro Garibaldi é cômica, grotesca, estapafúrdia. Típica de quem tem calças tipo ‘Cargo’ com vários bolsos entre os quais passeia a ’ bufunfa’. Uma solução imbecil, travestida de ‘racionalização do orçamento’, ou ‘repasse da batata quente”, “toma que o filho é teu’ etc. Penas pagas já tentaram ‘demonstrar’ que o problema maior é do Tesouro, como se o Tesouro fosse um baú recheado de pedras preciosas enterrado no Planalto, de onde jorra dinheiro – um pré-sal monetário. Repassai ao Tesouro o que é do Tesouro e o problema fica mais simples. Daí, vamos à praia – como dizia Melina Mercouri em ‘Nunca aos domingos’.

Na verdade é preciso atacar nas duas frentes – a pública e a privada , sem maliciar. Há ainda aqueles que recebem sem nunca ter contribuído, por obra e graça da Constituição cidadã. Nada contra, mas efeito sem origem é milagre, já dizia Delfim, com outras palavras. O dinheiro tem de sair de algum lugar. De onde? Não falarei do problema da pirâmide etária já descrito ad nauseam por analistas sérios. Menores ingressos no mercado, por conta da redução da natalidade, e essa falta de cooperação dos velhinhos que teimam em viver, além das idades que num passado permitiam um certo equilíbrio, contribuem para acentuar essa tragédia orçamentária.

Já escrevi que o problema é aquele que nos davam no ginásio: ‘uma piscina, cujo volume é de Z m³ (cujas dimensões são AxBxC m, com o nível de água alcançando D cm) é abastecida por uma torneira com débito de X m³/seg e possui um ralo cuja vazão é de Y m³/seg. Quais devem ser as vazões/débitos para que um anão de 1m de altura se afogue”? A isso, com alguma inclusão de cálculo das probabilidades, expectativa de vida etc., chamamos de ‘cálculo atuarial’! No nosso caso a piscina está devendo água. O anão poderá passear despreocupado por um bom tempo. Poderá até encolher. (sem contar que há uns ralinhos corrupção nada desprezíveis – ralo Jorgina e assemelhados, para ficar só na piscina sem olhar para mensalões e DNIT s da vida. – Tanto isso é verdade, que no projeto de corte de custos, os tais 50bi, desse governo, havia uma rubrica –eliminação da corrupção... só rindo).

Em nome dos direitos adquiridos, só se pode mexer na regra do jogo de quem ingressar agora no mercado. E é justo que seja assim. (Como explicar a um funcionário público que escolheu essa carreira visando uma aposentadoria robusta – e não podemos culpá-lo por isso, no máximo poderíamos dizer que a escolha da carreira deve visar a algo mais que o final da vida –, que faltando 3 anos para a aposentadoria, terá de se resignar com uma aposentadoria padrão INSS? O fator previdenciário para a ralé já foi rotulado de ‘maldito’, como se isso resolvesse!). Já viram o tamanho da encrenca! O ministro também, só que falta-lhe peito para enfrentar lobbies e não parece haver interesse no Congresso para ‘parir’ leis adequadas.

 

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` e ´Bucareste`, contos e crônicas (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



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