A crônica do Alexandru Solomon


 
 

A crônica do Alexandru Solomon

Página virada

A Copa de 2014 está aí, e ainda lambemos feridas da anterior, num saudável exercício de autoflagelação. Não há novidades nisso. O saudoso Thomaz Mazzoni, famoso comentarista de A Gazeta Esportiva empacotou os descrentes na embalagem “legião do 16 de julho”, aludindo ao Maracanazo e ao pessimismo que se instaurou a partir da data, até a redenção de 1958. Integrantes da legião de técnicos de futebol que somos, emitimos predições sombrias, esperando, secretamente, encontrar mais adiante o desmentido dos nossos prognósticos...

Nem chegamos às semi, e a Copa 2010 terminou mais cedo, pelo menos para nós. Sobraram vuvuzelas, um estoque de camisetas auriverdes, bandeiras, apitos e outros artigos perfeitamente aproveitáveis em outras oportunidades. A pátria de chuteiras se refaz, aos poucos, do trauma, até certo ponto previsível. Comentários de sobra até 2014, mas é forçoso convir que o mundo não acabou, salvo informação que ainda não chegou até nós.

Delegamos a um grupo de atletas o resgate de glórias passadas e vejam só o que fizeram! Envergonhados, os torcedores tratam de cuidar silenciosamente a ferida aberta. Nem tanto, por favor.

A glória futebolística, se faz um bem indescritível, não  é tudo.

De uma forma bastante insólita, tentamos fazer de um grupo de profissionais do ludopédio o instrumento de nossa afirmação. E nossa glória foi-se pelo ralo, por ter sido entregue nas mãos – perdão pés  – de um grupo esforçado, porém limitado. Ocorre que salvo uma ou outra “gritante injustiça”, alinhamos o que de melhor havia.

Não fomos os únicos a reclamar. A mania é universal.

Da mesma forma que por aqui se lamentou o fiasco – se é que uma derrota futebolística possa ser chamada de fiasco – com tantas coisas mais sérias a nos atormentar, constatamos que não temos o privilégio da originalidade. Sarkozy (talvez Hollande teria agido de outra maneira , já que ele resolveu encarnar a mudança), em pessoa, resolveu investigar o que aconteceu com ‘les Bleus’ – que já ganharam o apelido de “les Bluffs”, na Itália se deplorou a falta do “verdadeiro futebol italiano” e por aí vai. O que seria o verdadeiro futebol de um país? Já sei: É verdadeiro quando ganha.

Onde foi parar o verdadeiro futebol brasileiro, exclamam viúvas inconsoláveis. Esse Dunga, retrucam outros, com tantos volantes. Onde já se viu? Convocação absurda, de um treinador que nada entende - bradam os mais exaltados. Dessa maneira, haverá quem duvide que Deus é brasileiro. E agora, esse Mano! Já está na hora de substituí-lo por alguém do ramo.

Perdemos em 2010. Não foi a primeira, e infelizmente, não será a última vez. É triste, mas daí virarmos desconsoladas carpideiras há uma boa dose de exagero que é melhor banir. Poderemos encarar a História de cabeça erguida. Não fomos parar no terceiro subsolo.

Longe disso.

Com o risco de levar uma vaia estrepitosa, vamos olhar para trás.

Em 1958, a convocação não foi uma unanimidade. Depois da conquista, ninguém mais reclamou da não convocação de Luizinho o “pequeno polegar”. Poucos terão a objetividade de lembrar que nas semi, massacramos a França sim, mas eles jogaram com dez, porque o Jonquet foi aleijado por um dos nossos – pouco importa saber quem, mas foi o Vavá – e, naquela época, não havia substituição. Certo, Clotilde?

Em 1962 abatemos a Fúria espanhola, mas alguém se lembra da anulação de um gol legítimo deles e da “esperteza” de Nilton Santos, que após cometer um pênalti em Gento, deu um passinho para a frente, enganando o juiz? E se fosse ao contrário? E por acaso, alguém se dispõe a recordar que Garrincha fora expulso na semi, consequentemente não poderia ter disputado a final, não houvesse um  providencial “sequestro” do árbitro.

Em 1970, jogando contra o Uruguai, Pelé não deveria ter sido expulso, após uma cotovelada em Matosas, igualzinha àquela que motivou a expulsão do Leonardo, contra os Estados Unidos, em 1994? Claro que não! O juiz até deu falta a nosso favor!

Isso quer dizer que nossas vitórias não valeram? Claro que valeram, além de demonstrar que se o futebol se ganha “nos detalhes”, algumas vezes, os detalhes também estiveram a nosso favor de maneira inconteste.

Fala-se da seleção de 1982 como a grande injustiçada. Detalhe: no jogo com a União Soviética o juiz não viu um pênalti escandaloso de Luizinho. Depois, perdemos da Itália, mas será que se o técnico tivesse convocado Leão, ele não teria agarrado ao menos um dos três petardos de Paolo Rossi que arrancaram lágrimas do garotinho, na foto premiada do Jornal da tarde?

Ah, essas convocações! As vozes chorosas que lamentam a pubalgia de Kaká – o que diabo é essa pubalgia? Com pubalgia e tudo a bola que ele chutou só não entrou porque o goleiro holandês fez o que os holandeses, incluindo a Casa Real, esperavam dele: defendeu. Esse é o mal do qual padecem os goleiros inimigos.

Recordam a Copa de 1986, quando Zico, meio baleado, saiu correndo do banco de reservas para chutar mal um pênalti contra a França? Depois, é fácil criticar o grande Telê - tão malhado pelo  Jô Soares, perdão, Zé da galera - por não ter colocado pontas em 82, ou ter barrado Renato Gaúcho que se atrasara num treino em 86. Jogando sem Pato, sem Ganso - os canarinhos órfãos não deram conta do recado em 2010. Fracasso de nossa avicultura?

Gostamos de sofrer? Claro. Dirigimos olhares saudosos para nossas conquistas passadas e esquecemos pequenos detalhes que poderiam ter invertido alguns resultados, como o gol anulado da Bélgica em 2002 ou o satélite artificial lançado por Baggio em 1994.

Vamos ignorar os jogos restantes e vamos pensar na Copa de 2014, com a inevitável bagunça administrativa que a antecederá. Se algo der errado (tomara que não) poderemos nos insurgir contra as sempre presentes “forças ocultas” personificadas por perversos Mr. Ellis – árbitro do jogo Hungria 4 x Brasil 2, num distante 1954, que provavelmente nada fez de tão errado para merecer os insultos dos nossos gloriosos locutores de uma época sem TV, câmera super-lenta etc.

Seremos HEXA ou hexagerados. Tudo dependerá dos caprichos dos deuses do futebol e do superfaturamento.

 

Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 

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Categoria: Crônicas
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h10
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Conversa (des)afinada

PRÓXIMA ESTAÇÃO: O ENCILHAMENTO II

 

 

Assim como não há uma vacina contra a malária, conhecida pelos acessos que ocorrem periodicamente, o assunto da correção dos planos econômicos volta e meia retorna ás manchetes. Agora, está na tal reta final que marcou encontro com uma solução um pouco além da linha do horizonte.

O debate acerca dos planos econômicos e suas consequências sobre poupadores (e por que só sobre os poupadores? – perguntou alguém) merece um tratamento lógico, sem o foguetório improdutivo da discurseira destinada a granjear popularidade. Um esquema do tipo "árvore de decisão" seria um providencial fio de Ariadne em busca da saída desse labirinto.

Primeira pergunta: Os planos econômicos – deixando de lado o fato de terem sido gestados em situações de desespero – feriram a Constituição? Vamos deixar de lado também o fato que o Plano Bresser foi emitido antes de a Constituição de 1988 ter sido promulgada. Não feriram? Então não há mais o que discutir.

Próximo assunto, pois há centenas de processos a serem julgados.

Feriram, sim. Então, vamos determinar quem foi prejudicado e quem se beneficiou. Houve prejudicados e beneficiados, sim ou não? Não houve. Caso encerrado.

Houve, sim. Caberá recomposição dos valores? Sim ou não. Não. Vamos ao cinema.

Sim! Então é preciso retroceder. Finalmente se houve prejuízos e lucros a quem caberá pagar a conta? Mal nenhum faria, caso a discussão siga esse caminho, começar a falar em números. Como no quadro cômico do Jô Soares – nos tempos em que ele era mais engraçado do que hoje – imitando o então ministro Delfim, apelidado de professor Sardinha: "Meu negócio são números". Parece simplória a decisão de pendurar a conta no pescoço dos bancos que nada mais fizeram a não ser respeitar decisões vindas "de cima". Seria apenas um subproduto da cultura que demoniza as instituições financeiras. Continuemos. De quanto estamos falando, afinal? É preciso definir, ou basta bater o martelo e contar mais tarde mortos e feridos? Iniciar-se-ia uma discussão, para a qual, com todo o respeito, os magistrados da mais alta Corte não têm competência técnica. Podem decidir se os planos feriram ou não a Constituição, mas determinar valores é outro departamento. No entanto terão de fixar com precisão, para operacionalizar essa eventual sentença, porque lavar as mãos não parece muito sério. Ficarão se debatendo entre pareceres que afirmam que os bancos ganharam em valores de hoje estratosféricos 8%-19% do PIB e outros que afirmam que não houve ganho algum. E esses pareceres não são fruto de pura "achologia", embora as diferenças sejam escandalosamente grandes e não estejam desprovidos de viés ideológico e/ou erros mais ou menos involuntários. Nem é preciso ressaltar o quanto uma conta bilionária impactaria a economia do país. Claro está que amarrados a condições impostas pelos acordos de Basileia, os bancos não poderão mais emprestar os mesmos valores, já que existem restrições à alavancagem.

O crédito, ’secaria’.

Agora, alguns exercícios para ilustrar a complexidade do rolo. Admitamos que as eventuais sentenças beneficiando associações de poupadores foram prolatadas.

Eis que chega um senhor de idade.

– Vim buscar meus direitos.

– Nome, endereço, CPF, tipo sanguíneo, radiografia do tórax etc.

– Tenho tudo aqui, fui instruído pelo IDEC, a senhora Lazarini me ajudou. Trouxe também o certificado de reservista. Ah, não precisa? Tudo bem, eu guardo.

– Muito bem.  O senhor é o titular OK. Prossigamos. De quanto estamos falando?

– No plano XXX eu tinha 3 milhões de....deixe-me lembrar. Ah sim de Mangos Novos. Os cálculos estão aqui.

– Momentinho, por quanto tempo , depois do plano o Sr. manteve a conta de poupança.

– Ah por um bom par de anos... depois tive de implantar uma prótese de joelho e gastei tudo com fisioterapia.

– Então, lamentamos. Temos aqui um estudo segundo o qual, o senhor ganhou .

– Mas...

– O senhor experimentou uma perda naquele momento, mas se manteve a conta por um trimestre saiu ganhando. Nosso recurso xpto foi aceito pelo Supremo e até pelo Extremo. Tenha um bom dia.

Chega um jovem – integrante da geração Y – com uma pasta cheia.

– Bom dia. É a respeito daquele negócio, tá me entendendo, de recuperar as perdas devida aos planos econômico.

– Devidas...econômicos.

– Isso aí, esse negócio de ‘esses’ não tá com nada.

– Mas o senhor não tinha nascido.

– É esses extratos – mostra uma pilha de papéis – são do meu falecido pai. O velhão se foi faz cinco anos.

– Lamentamos saber que ele se foi.  O senhor é o único herdeiro?

– Peralá. Eu tenho mais dois irmãos e minha mãe está viva, mas não pode vir, porque está viajando pelo Interior.

– O senhor possui procuração, formal de partilha...

– Sabe, eu não falo mais com meus irmãos e minha mãe  está...

Essas cenas podem parecer engraçadas, mas no nosso Absurdistão, nada têm de surreal. Isso para não falar nos casos trágicos, nos quais a esperança de receber um dinheirinho anima aqueles que – sem saber – integram a nova classe média. Também não vale mencionar os senhores ventripotentes, desembarcando, acompanhados de um séquito de causídicos, de reluzentes Mercedes – possuidores na época dos planos de mais de metade da bolada em discussão.

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O assunto está nas mãos do Supremo, mas frases como a do eminente ministro Lewandowski, que aparentemente está dotado da resposta às perguntas anteriores, "caberá (pagar) aos bancos, que já ganharam muito dinheiro", tipificam prejulgamento e desmoralizam o processo. Ser dono de tal convicção antes de uma profunda análise, no mínimo o tornaria impedido.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h42
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Conversa (des)afinada

Absurdo

 

 

Parece que os representantes graduados de nossa inteligentsia resolveram partir para a taxonomia  delirante, aplicada às manifestações de rua. E as ovelhas de Panurgo tanto na grande mídia , quanto na blogosfera adotaram a classificação.   É um absurdo galáctico falar que ‘isso que está aí’ é  apenas o exercício democrático do direito de defender um ponto de vista, uma causa, um direito legítimo ou nem tanto separando-o da barbárie, quando na verdade estamos diferenciando apenas diversas nuances de brutalidade,  Para não divagar em demasia, basta afirmar que  até hoje não houve manifestação pacífica alguma. O que houve foram manifestações com vandalismo e sem vandalismo. As chamadas manifestações pacíficas nas quais grupos ou grupelhos tolhem o direito de ir e vir do cidadão comum, do trabalhador ou de um mero nefelibata a passeio, direito garantido pela Constituição, são não violentas mas não deixam de ser agressivas.  Os Anti-Copa, os integrantes do MTST, os professores e por aí vai desfilam sua indignação, protestam, vituperam  onde? No Sambódromo? Não! Nas principais artérias entupidas das nossas metrópoles. Entre a meia-noite e as 4 horas da manhã? Não! No horário no qual podem causar o máximo transtorno para, ao impor sofrimento, chamar a atenção  Os black blocs são apenas a cereja podre  em cima do bolo. Vamos convir: golpes acima ou abaixo da cintura doem. Não é preciso ser o marquês de Queensberry para concordar. E é dessas pancadas que se está falando.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 

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Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 11h26
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Conversa (des)afinada

Vergonhosa marca registrada

 

Tudo ficou para a última hora, desde a construção dos estádios dessa tal “Copa das Copas” – na retórica triunfalista que mal encobre a incompetência gritante da organização –  até os protestos contra a realização do evento. Assim como são absurdas as tentativas de justificar os atrasos   –  porque tempo não faltou, foram quase sete anos! – tão ou  mais absurdos ainda são os movimentos, que ao paralisar as principais avenidas, transformaram a população em reféns de protestos, justificáveis quanto à  sua motivação e indesculpáveis quanto à execução. Não há desculpa para essa situação e, seguramente, minimizar a magnitude desse caos não transformará as nossas já sofridas cidades em oásis de tranquilidade, não transformará a baderna em delicado minueto.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h16
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Conversa (des)afinada

Lucy revê suas anotações. Ich bin ein Absurdistaner

 

Após uma breve interrupção, Lucy continuou a colocar em ordem as suas fichas. Percebeu que na desordem organizada, própria de sua natureza irrequieta, havia uma anotação referente ao reinado do Bolivaristão, reino situado além da fronteira setentrional do Absurdistão. Caracas! Exclamou Lucy, evitando a armadilha do palavrão que por pouco não deixara de proferir. Leu rapidamente.

Se no Bolivaristão os súditos de Don Adulto mal têm o que comer, que diferença faz ter ou não ter papel higiênico? Lucy guardou a anotação e voltou ao seu relatório Absurdistanês. Dois tópicos a aguardavam.

Mediocridade administrativa. Pouco afeita às sutilezas do idioma do qual a duras penas – penas de pinguim congelado – conseguia se assenhorear, Lucy hesitou um pouco entre mediocridade, incompetência e inoperância, mas optou pelo primeiro termo. Entre outros elementos que justificavam a observação, Lucy ateve-se a alguns, sem pretender esgotar a lista.

Estranhou a decadência da Petroabsurdão. A outrora flamejante empresa amargava uma constrangedora classificação no rol das empresas petroleiras, desmentindo o bordão segundo o qual “o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada, sendo o segundo melhor uma empresa mal administrada.” Havia um debate acirrado na imprensa absurdistanesa acerca da compra de uma refinaria, que segundo alguns fora um mau negócio, segundo outros um bom negócio e segundo outros uma operação que só se realizou devido à omissão de algumas clausulas contratuais não mencionadas num resumo executivo. Curiosa pela própria natureza, Lucy procurou saber um pouco mais. Uma das famosas cláusulas, cujo conhecimento prévio teria brecado a malsinada compra, era uma tal de put. Lucy procurou certificar-se de que lera corretamente. Era isso mesmo. A tal de put havia parido a confusão! Segundo essa cláusula que nada de extraordinário tinha, em caso de desacordo entre os sócios desse maravilhoso empreendimento, um deles poderia vender ao outro a sua parte. Lucy resumiu, com seu notável poder de síntese. “Eu te compro ou tu me compras”. Por que diabo a Petroabsurdão comprou? Por que não vendeu, já que não quis comprar? Por que não disse por meio dos seus portapensamentos: “Por esse preço que tu me pedes eu ta vendo”. Sem resposta, pensou ter esgotado o assunto Petroabsurdão. Mas ele voltou com outra roupagem.

Lucy leu algo sobre a inflação e a meta. Ah, essa meta!  Como terá sido estabelecida? Logo imaginou um arqueiro do rei, ou teria sido o rei, soltando uma flecha majestática em direção a uma tábua com números aleatoriamente dispostos. A seta teria se fincado no número 4,5% e mais rapidamente do que pudesse imaginar, um bando de cortesãos teria traçado círculos em volta do alvo, determinando margens de tolerância. Assim é que, por uma flexibilização do conceito, em Absurdistão não se falou mais na “meta” e sim na “mancha” formada pelos círculos concêntricos em volta do “tiro real”. Por razões mil, a inflação ameaçou sair desse circulo nada caucasiano. Não seja por isso. Confundindo alta de preços com nível de preços partiu-se para o controle de preços. E eis novamente a Petroabsurdão entrando em cena. Os sábios governantes não ignoravam a influência dos preços dos combustíveis e para que a alta destes não desencadeasse uma cascata de outros aumentos, afinal, em outros tempos formavam-se filas enormes de absurdistaneses em frente aos postos de gasolina ás vésperas de aumentos anunciados, resolveram os preclaros congelar os preços desses combustíveis tão desprovidos de patriotismo. Por uma fatalidade, o Absurdistão apesar de autossuficiente em petróleo, não o era tanto assim, tendo que importar pela Petroabsurdão por um preço alto – malditos estrangeiros! – e vender por um preço inferior ao de compra os preciosos combustíveis. Segundo intrigas oposicionistas esse era um mau negócio. Como isso não era suficiente, a sacerdotisa-mor de Absurdistão, com o fito de ganhar o bicampeonato de Miss Simpatia, determinou que as tarifas de energia elétrica baixassem. E como as distribuidoras de energia – fustigadas, como de resto o reino inteiro, por uma ausência de chuvas, que comprometia o nível das represas das centrais elétricas – tiveram que comprar energia mais cara, iniciaram uma choradeira comparável ao lamento do terceiro ato de Nabuco. Para tapar o buraco, recorreu-se a grana sonante e, para evitar a pecha de falta de criatividade, eis que um gigante, a CCEE, reputada pela exuberância de seus ativos, foi induzida a tomar um empréstimo – coisa pouca – para repassar às distribuidoras que já estavam matando cachorros a gritos – suscitando, com esse morticínio, enérgicos protestos da Sociedade Protetora dos Animais. Depois, a gente vê. O diabo é que o depois vem logo depois do agora. Assim, a inflação convergiu de forma não linear para o ponto representado pelo centro da  meta, ou pelo menos, não saiu ainda da mancha. Uma cefaleia aguda fez Lucy deixar de lado a ficha relativa ao “pibinho” e pulou para:

Péter plus haut que son cul. O professor de Francês de Lucy garantira que a vulgaridade do termo era apenas aparente, tratando-se de uma antiga expressão, datando de 1640, cujo significado tomado ao pé da letra é: soltar flatos por algum lugar situado acima do orifício designado para esse fim, mas que na verdade também quer dizer pensar ser melhor do que se é na realidade, mesmo estando ‘numa cidade sitiada’. É um pecado que assola os dirigentes do Absurdistão, quando se referem ao reino ou, modestamente, a si próprios. Assim é que, generosamente, foram perdoar dívidas de reinos longínquos, se bem que eram dívidas representadas por papéis cuja melhor utilidade teria sido suprir a falta que vitimava o Bolivaristão.

A diplomacia do Absurdistão poderia se resumir em duas tendências maiores: Tudo para chatear um tio Samuel e ausência total de coluna vertebral quando se lidava com gigantes do porte de alguns vizinhos encrenqueiros. Um apêndice ao princípio acima era ostentar orgulhosamente a carteirinha de sócio atleta de um tal BRICabraque. A ambição em nome da qual o Absurdistão atuava era conseguir uma cadeira, poltrona, sofá ou algo assim, num Conselho de Segurança onde poderia fazer ouvir sua voz, já que a humanidade em geral parecia padecer de alguma surdez ante brados retumbantes emitidos de outros lugares.

 

 

Oz vizinhos encrenqueiros tudo fizeram para irritar o Absurdistão. Mas com a complacência plácida de Gulliver em Lilipute, o Absurdistão afagava o senhor dos gases, pagando o que ele pretendesse, reverenciava as traquinagens da republica do Perônio – ou da fíbula, como queiram – e aguentava sorridente pequenas insolências vindas de irmãos menores. Para alguns a melhor solução nesse caso seria aquela encontrada por Gulliver para apagar um incêndio em Lilipute, porém essa medida algo drástica caracterizaria uma recuperação da coluna vertebral, projeto de difícil consecução. Consultado a respeito o doutor Sérgio Z, especialista em problemas de coluna, confirmou a assetiva.

Para mostrar sua cara ao mundo, e por mundo entenda-se o planeta Terra, o sistema solar e as galáxias próximas, o Absurdistão assumiu a organização de dois magnos eventos esportivos: a Copa das Copas e a Olim-piada. Para a Copa das Copas, evento-mor do ludopédio mundial, foi necessário construir arenas perto das quais o Coliseu romano não passa de ridículo pigmeu. O projeto ambicioso sofreu por causa de dois fatores. O primeiro era a obstinação doentia de uma federação internacional, cuja insistência em manter a data programada, insinuando ser necessário ministrar ao Absurdistão pontapés no local onde as costas mudam de razão social – OOOOOOHHHH – parece totalmente descabida. Adiar o  evento não teria nada demais. Se a transposição de um grande rio podia ter seu término adiado e se o projeto de um trem-obus podia ter até seu início procrastinado, por que cargas de H20 essa teimosia em manter uma data muito menos importante, causando um estresse monumental à operosa comunidade absurdistanesa? O segundo óbice, infinitamente menos importante era encontrar um zoológico disposto a abrigar uma série de elefantes de cor branca, passado o grande evento. Quanto a Olim-piada, o Absurdistão está algo enrolado, sem dúvida por causa dos cinco anéis que o obrigam a andar em círculos nada viciosos.

Cansada pelo esforço, Lucy decidiu adiar a digitalização de suas memórias de viagem. Quem poderia censurá-la por isso? Ao perceber que involuntariamente cometera um trocadilho, Lucy apagou a luz e foi dormir.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 13h15
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Conversa (des)afinada

Lucy consulta suas notas de viagem

 

    Fazia parte do treinamento de Lucy, nessa sua ambientação após seu prodigioso salto no tempo uma série de visitas técnicas. Coroando essas atividades, o CIL (Centro de Integração de Lucy – observação para os leitores desmemoriados) conseguiu uma suplementação de verbas e programou um passeio no Absurdistão. Para os menos versados nas continuas modificações geopolíticas que agitam nosso miserável grão de areia perdido no Universo – fonte inesgotável de perguntas capciosas em exames vestibulares, as agitações, não o Universo – basta saber que se trata de uma república situada em algum lugar ao sul do equador, num continente conhecido como Vespúcia do Sul. Aos mais interessados, recomenda-se consultar uma criança-prodígio, dessas que passam horas intermináveis em frente a uma telinha de computador ou de um fone que nada mais tem de Smart para ela.

A viagem transcorreu sem incidentes, apesar de, vez por outra, ter sido necessário encontrar um refúgio, ainda que precário, para evitar encontros desagradáveis com manifestantes pacíficos, porém de insuspeita agressividade. À pergunta óbvia: “Qual o propósito que move esses estranhos sodalícios?” a resposta recolhida num compêndio de autoria de um pensador local não deixava margem à menor dúvida, pela precisão da análise quantitativa: “São movimentos 80% políticos e 20% lúdicos”. Foi nessa oportunidade que Lucy descobriu ser 80% prudente e 20% curiosa, motivo pelo qual, no seu caderninho de anotações, anotou – caderno de anotações serve para anotar, se bem que poderia ter consignado, registrado ou até mesmo assinalado – “Ainda bem que não sou vitrine de loja’.

Já de volta aos seus confortáveis aposentos, Lucy preparou o relatório da viagem, a fim de submetê-lo à apreciação dos seus orientadores. Alguns trechos foram “vazados”, quebrando o sigilo da missão. Ocioso perguntar como ocorreram sesses vazamentos. Tudo vaza, desde tubulações de água até os segredos de Polichinelo. Como diz um sucesso musical “mas tudo vaza, tudo vazará”. Eis alguns trechos. Será necessário dar o devido desconto pelo fato de tratar-se de um simples rascunho, uma vez que não há noticia da existência de uma  formatação final a exemplo de um tal PAC N, eternamente inconcluso, sem contar que Lucy continuava com péssimo aproveitamento no quesito redação.

Observei – as observações são de inteira responsabilidade de Lucy – que há alguns pobremas de suma relevância. Esse trecho estava rasurado sendo possível constatar que a autora tinha algumas dúvidas quanto a grafia da palavra. Assim, ela alternava as formas problemas e pobremas, para finalmente, optar por pobremas.

Ética das bonecas infláveis. Foi a maneira que Lucy encontrou para designar o comportamento dos políticos que compunham uma tal base aliada. “Esses aceitavam com alegria serem inflados, tendo acesso a funções que recompensavam sua fidelidade, mesmo que não apresentassem a menor vocação, talento ou competência para desempenhar razoavelmente suas tarefas, e, em seguida, após uso, serem desinflados e colocados numa máquina de lavar, junto com algum dinheiro. Na ausência de coleta seletiva de lixo eram descartados – segundo uma expressão local colocados debaixo do tapete – e rotulados como indignos de confiança. Novas bonecas infláveis eram providenciadas, pois o Absurdistão não pode parar”. Lucy chegou a questionar seu mentor de química se não era possível encontrar um ácido aliado, que em contato com a base aliada, produzisse a conhecida reação de neutralização, resultando sal e água. “Que sal e água, Lucy, – exclamou o acadêmico – aqui resulta pão e circo”.

Numa outra página, lia-se:

“Nanismo moral. Esse pessoal – é Lucy que está filosofando – não tem outro princípio do que não ter princípio algum. Ora estão vituperando ‘tudo isso que está aqui’, ora enaltecem tudo isso que aqui está, dependendo do lado do guiché no qual se encontram. Têm um refrão; eu fiz depois de negar veementemente o malfeito – mas vocês também fizeram. Pior que, em geral, têm razão. Possuem uma paixão incontrolável com viúvas, e a paixão parece encontrar eco, pois todos gastam generosamente o dinheiro da viúva, podendo ser até a viúva Clicquot. São eméritos marceneiros, pois todos fazem uma tal de caixa dois. Higiênicos ao extremo, costumam lavar dinheiro, já que é sabido que o contato com os germes está repleto de perigos. Fato estranho, são acometidos por uma amnésia seletiva. De algumas coisas não sabem e não se lembram, em compensação estão sempre dispostos a lembrar detalhes da vida nada louvável dos seus opositores. Possuem bochechas enormes que adquirem proporções impressionantes, à la Dizzie Gillespie toda vez que pronunciam a palavra ‘povo’. Tudo pelo PPPPPovo. Engraçado o fato de no Absurdistão, quanto mais indecente o indivíduo, maior sua probabilidade de ser eleito ou reeleito. São todos participantes do programa  Minha Mercedes, minha vida. Possuem primeiras amigas, primeiras amantes, com o perdão do chiste – raramente de primeira mão.

Finalmente, numa outra ficha consta

Desenvolvimento do complexo de cidade sitiada.

“Toda vez que emerge um escândalo, surge o bordão.: ”Estão tentando nos destruir”. Não se sabe ao certo quem são esses maldosos “eles’ – os amadores de destruição – mas para tranquilidade  de todos vem a frase reconfortante: “mas não conseguirão”. Há um certo maniqueísmo primário, derivado da marcação dos pontos na tranca, que divide a humanidade em Nós e Eles. Naturalmente, “Eles” precisam ser aniquilados, para que nós cuidemos dessepaiz. Outro dia, disseram que alguns seres malignos associados a uma imprensa vendida estavam querendo destruir a Petroabsurdi, orgulho de todos. Quiseram até chama-la de Petroabsurdix. Claro, acrescentam, isso não acontecerá. Há inimigos por todo lado: são aqueles que promovem tsunamis monetários, outros que não compram a produção absurdistanesa, outros que se contorcem em espasmos raivosos porque o povo vive melhor. Isso é verdade, pelo que se pode apurar, em Absurdistão não falta papel higiênico.

Ausência de coluna vertebral.

As anotações às quais tivemos acesso cessam nesse ponto, mas, com certeza, o trabalho de Lucy mal começou.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 18h39
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Conversa (des)afinada

Próxima estação: o encilhamento

 

 

O debate acerca dos planos econômicos e suas consequências sobre poupadores (e por que só sobre os poupadores?) merece um tratamento lógico, sem o foguetório improdutivo da discurseira destinada a granjear popularidade. Um esquema do tipo ‘arvore de decisão’ seria um providencial fio de Ariadne em busca da saída desse labirinto. Primeira pergunta: Os planos econômicos –, deixando de lado o fato de terem sido gestados em situações de desespero –  feriram a Constituição? Vamos deixar de lado também o fato que o plano Bresser foi emitido antes de a Constituição de 88 ter sido promulgada. Não feriram. Então não há mais o que discutir. Próximo assunto, pois há centenas de processos a serem julgados. Feriram, sim. Então, vamos determinar quem foi prejudicado e quem se beneficiou.  Houve  prejudicados e beneficiados, sim ou não? Não houve. Caso encerrado. Houve, sim. Caberá recomposição dos valores? Sim ou não. Não. Vamos ao cinema. Sim, é preciso retroceder. Finalmente se houve prejuízos e lucros  a quem caberá pagar a conta?  Mal nenhum faria, caso a discussão siga esse caminho, começar a falar em números. Como no quadro cômico do Jô Soares – nos tempos em que ele era mais engraçado do que hoje –, imitando o então ministro Delfim: “Meu negócio são números”. Parece simplória a decisão de pendurar a conta no pescoço dos bancos que nada mais fizeram a não ser respeitar decisões vindas “de cima”. Seria apenas um subproduto da cultura que demoniza as instituições financeiras. Continuemos. De quanto estamos falando, afinal? É preciso definir, ou basta bater o martelo e contar mais tarde mortos e feridos? Iniciar-se-ia uma discussão, para a qual, com todo o respeito, os magistrados da mais alta corte, não possuem competência técnica. Podem decidir se os planos feriram ou não a Constituição, mas determinar valores é outro departamento. No entanto terão que  fixar com precisão, para operacionalizar essa eventual sentença, porque lavar as mãos  não parece muito sério. Ficarão  se debatendo entre pareceres que afirmam que os bancos ganharam em valores de hoje estratosféricos 230 bilhões de reais e outros que afirmam que não houve ganho algum. E esses pareceres não são fruto de pura “achologia”, embora as diferenças sejam escandalosamente grandes e não estejam desprovidos de viés ideológico e/ou erros mais ou menos involuntários.  Frases como a do eminente ministro Lewandowski, que aparentemente está dotado da resposta às perguntas anteriores: “Caberá aos bancos, que já ganharam muito dinheiro”,  tipificam prejulgamento e desmoralizam o processo. Ser dono de tal convicção antes de uma profunda análise, no mínimo o tornaria impedido.

 

Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h04
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Conversa (des)afinada

Incorreções monetárias

 

“Quem domina o presente reescreve a História.”

 

Segundo Colbert, arrecadar  impostos é como depenar gansos, tentar obter o máximo com um mínimo de gritaria das aves. Quando se pensa em gansos, não há tantos problemas.

Depois de míseros 12 anos o STF decidiu que houve inconstitucionalidades nas leis que alteraram o índice de correção monetária dos balanços das empresas. Então, as medidas impostas às empresas há mais de 20 anos (1989) deixam de ser válidas. Não é o caso de discutir a decisão da mais alta corte. Surge a pergunta: E agora?

De imediato, nota-se que em função da decisão, aparecerão contas salgadas e a inevitável pergunta: Quem as pagará?

 

De um lado, empresas capitalizadas tiveram, por força das imposições, hoje  “promovidas” a inconstitucionais, de corrigir os balanços com índices inferiores à inflação calculada pelo IBGE. Como o saldo dessas operações resultará agora em uma despesa maior, com a consequente redução dos lucros tributados na época, é possível e é justo que diversas empresas procurem seus direitos na Justiça, com a alegação pertinente de ter recolhido IR e CSLL a maior, sem contar que a distorção, ou a correção desta se estenderia ao longo do tempo, até o advento do Plano Real que, na tentativa de desindexar ao menos parcialmente a economia, passou a ignorar a correção – até que algum revoltado, a hipótese é delirante mas não impossível, venha  a questionar a constitucionalidade do Plano Real.

Há o outro lado da moeda. As empresas que apresentaram o chamado saldo credor da correção monetária se verão, de repente, na situação de não ter recolhido IR e CSLL no montante devido, com a nova determinação. A menos que a União dê mostra de uma total,  inesperada e improvável inapetência arrecadatória, haja cobranças, quem sabe mais um Refis.

E depois de uma longa hibernação, é possível, caso o STF assim determine, que os detentores de cadernetas de poupança possam reivindicar valores, que em função de diversos planos governamentais não lhes foram creditados. Resta saber, como se operacionalizaria tal ressarcimento. A quem deverá ser apresentada a conta, caso as eminências togadas declarem insuficientes os índices aplicados na salada de Planos fracassados.

A voz corrente é que a conta, se houver, deverá ser apresentada aos bancos. No entanto há objeções pertinentes. Os bancos públicos e privados não aplicaram índices menores para, a sorrelfa, e por pura perversidade, prejudicar pequenos, médios e grandes poupadores. Cumpriram leis e determinações cuja constitucionalidade passa a ser rediscutida. Vale lembrar que o mesmo índice que prejudicou os poupadores beneficiou os mutuários de determinados planos de aquisição da casa própria pelo Sistema Financeiro de Habitação. Proprietários de imóveis já quitados poderão, se ainda em vida, se ver ante novas cobranças, ou isso dará origem a uma nova versão do FCVS, potencial esqueleto para os armários da União? Isso sem contar que muitos desses mutuários na tentativa de recuperar perdas na caderneta, poderão ter a surpresa de descobrir que, na realidade estão devendo. É fácil imaginar a confusão. Fulano de Tal possuía uma caderneta de poupança nos bancos A e B e financiamento no banco C. Haja levantamentos.

Continuando no terreno das hipóteses, já que nada foi – ainda – decidido, a conta teria grandes chances de ser apresentada ao mandante das operações, ou seja, o Governo. No caso dos bancos públicos isso parece inevitável, já que, para honrar a conta, haveria a necessidade de capitalizá-los, com injeções de dinheiro do nosso incansável Tesouro – leia-se de todos nós. Aos bancos privados restará a alternativa de encaminhar a conta, por exemplo, ao BC, cujas determinações foram seguidas, naqueles dias de inflação destrambelhada. Afirmar que as instituições financeiras ganharam com essa correção incorreta merece uma reflexão, já que os depósitos em caderneta serviram para o financiamento habitacional, cujas correções de uma forma ou de outra seguiram a lei. Ganhos de um lado perdas do outro.

As consequências das decisões do STF são de impossível quantificação e a operacionalização possui aspectos políticos de inimaginável complexidade. A não ser que se procure um bode expiatório para a confusão.  Diz um provérbio da região de Provence: ”Quando as cabras dão leite, não é preciso procurar bodes... expiatórios”. O problema se agrava quando se procura substituir as cabras por pedras na tentativa de se extrair leite.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br




Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h39
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Confiava cegamente neles. Aí aprendi o Braille.

O que se salva?

 

   “De tanto ver triunfar as nulidades”, exclamou Ruy Barbosa por volta de 1914, “...o homem chega a desanimar da virtude”. Naquela época, como hoje, o desânimo se justificava, dizem. Será? Para quem a tarefa de endireitar o mundo parece excessivamente aborrecida, resta o consolo de entender que o que puder ser salvo, um dia, o será. Dito de outra maneira: Se estiver confuso, confunda os demais e ganhe tempo. Sobretudo, jamais interpele os impostores. Para quê? A credulidade substitui a contestação; o fraco andará a reboque de conceitos que não entende, sempre disposto a amaldiçoar uma verdade em conflito com a crença que acabaram de lhe instilar. O ingênuo contemplará boquiaberto o espetáculo que lhe é oferecido. Existe justificativa melhor para os chamados showmícios? Nada como a estridência de um espetáculo para determinar uma opção política. Um espetáculo de ópera-bufa protagonizado por um candidato comunicador e pronto, muda o destino de um país. A tal consciência política tira férias remuneradas, para em seguida se indignar com uma escolha desastrada.

Isso só acontece na Namíbia, aquele país tão limpinho que não parece Africa, já que por aqui, os showmícios foram eliminados.

Exigir algo de meros títeres subordinados aos próprios instintos, é um pensamento utópico e, sobretudo, indigesto, já que a injustiça jamais se limitou a gerar um filho único. Quanto à justiça, ela é cega por definição.

Importante é deixar sempre um espaço para um recuo, que permita contemplar o todo hostil com um sorriso, mesmo com o risco de saber que a qualquer momento, poderá virar um ricto. O segredo, se é que existe, é tocar sempre com a ponta dos dedos, roçar sem o compromisso de aprofundar-se, sem provocar a alergia à verdade daqueles que dela se proclamam donos. Ressaltar o mal, que se esconde atrás de argumentos traiçoeiros, é, seguramente, uma armadilha ao nosso comodismo, a ser cuidadosamente evitada.

Visto assim, tudo passa a ser mero objeto de escárnio. Não há  mais o risco de tombar empunhando a bandeira de um ideal com seu prazo de validade vencido. Aos que imaginam ser esse um caminho para a superficialidade, para a alienação, termo abusivamente presente em debates acalorados, Pascal retrucaria ser importante ter um pouco de tudo e não tudo de alguma coisa. Não é uma receita de vida nem um convite ao alheamento e sim, uma forma menos tensa de examinar o palco da existência, no qual um detalhe irrelevante pode arruinar o mais ambicioso projeto, um toque inoportuno de celular consegue dissipar a aura de um momento mágico, onde, finalmente, ídolos adquirem essa condição, enquanto iluminados pelo jogo de luzes de um diretor experiente, para se desintegrar quando baixa a cortina. O “para sempre” dura no máximo até o fenecer da estéril paixão.

Indiferente a reflexões desse jaez, a sociedade se encarrega de ignorar a imagem tétrica do relógio sem ponteiros de “Morangos silvestres”, soterrada pelo advento de inexpressivos relógios digitais. O diálogo encontrou substituto digno no discurso vazio, sem contestação possível, a arenga insossa do “vender o peixe”. Tão compacta é a fala que rege a sociedade, que não há espaço para discussão. Aforismos sem valor, e não vale a pena enumerá-los, passam a governar as mentes. Contestar?  Por acaso existe a certeza – e se existe, onde é que ela fixou residência? Deve estar perdida entre a teia de Penélope e o vão esforço de Sísifo, entre o ardil e a sentença.

Levar a sério a realidade? Melhor dirigir-lhe um olhar zombeteiro. Será essa a desforra. A pretexto de estarmos vivendo intensamente determinado momento, não faz sentido afirmar ser determinado instante mais importante do que outro. Não há mais nada de excepcional, inexistem encruzilhadas históricas, a não ser para nós mesmos. Se houver alguma perspectiva inebriante, bastará um olhar irônico para demolir qualquer arcabouço ou dogma, para transformar em bagatela ao invés de sofrer por conta de males, cuja cura teima em fugir à sabedoria. O caniço pensante precisa, com urgência, aprender a dar de ombros.

Nossa jornada é apenas o atalho para descobrir, algo tardiamente, a inutilidade de ser sério. Os mais nobres sentimentos abdicam da sua solidão majestática ao chocarem-se com o trivial. Entre sermos inconsoláveis cassandras, ou torcer pelo fracasso das nulidades, manter o sorriso é uma medida de sobrevivência. Saída poética, talvez, já que sem sermos poetas, saberemos ser fingidores. Ante a falta de pudor do político, o sorriso do sábio. Isso não irá mudar algo, mas se não é a solução, proporcionará pelo menos um agradável fim de semana, sabendo que o Febeapá do saudoso Ruy Porto possui ainda várias páginas em branco.

E as nulidades? Bem, quantos têm na ponta da língua o nome de quem derrotou Ruy Barbosa, nas urnas? Eis a resposta definitiva, ainda que disfarçada de pergunta.

 

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 

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Categoria: Crônicas
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h21
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Gentile Alexandru Solomon,

la Giuria del Premio “Poesia, Prosa e Arti figurative” e del premio teatrale “Angelo Musco” Il Convivio 2013, dopo aver esaminato  gli elaborati pervenuti, ha l’onore di comunicarLe che nella sezione “Libro edito sez. Autori stranieri Narrativa” Le è stato assegnato il

 

Primo Premio Assoluto

 

 

con “A luta continua”. Nel congratularmi con Lei per il risultato raggiunto, Le comunico che la premiazione si svolgerà a Giardini Naxos, in provincia di Messina, domenica 27 ottobre 2013 alle ore 9:30 a.m. presso l’hotel Assinos, sito in Via Consolare Valeria 33. Per un’ottima riuscita della manifestazione è indispensabile la Sua presenza che si prega in ogni caso di confermare entro e non oltre il 15 ottobre. La presente comunicazione vale anche da invito, da estendere ai Suoi familiari.

L’Accademia Internazionale Il Convivio inoltre, tenuto conto dell’ottimo risultato da Lei raggiunto, le propone l’inserimento del Suo lavoro nella prestigiosa antologia pubblicata dall’Accademia, secondo le modalità della richiesta allegata da far giungere alla Segreteria del Premio entro e non oltre il 30 ottobre 2013. La pubblicazione dell’antologia è prevista presumibilmente entro il mese di maggio 2014.

A conclusione della cerimonia di premiazione, quale momento di amichevole incontro, sarà possibile pranzare presso il ristorante dello stesso Hotel Assinos. Si prega di prenotare con largo anticipo esclusivamente presso la segreteria del Premio, in ogni caso prima del 20 ottobre. Tel: 0942-986036; 333-1794694. Il costo del pranzo è di € 25.

 

In attesa di un Suo cenno di riscontro Le porgo carissimi e cordiali saluti.

 

Il Presidente dell’Accademia

      Angelo Manitta



Categoria: Crônicas
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 20h45
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Conversa (des)afinada

A agonia da decência          

 

Não atirem os políticos ao mar, eles sabem nadar.

 

   No zoológico, os animais são geralmente decentes, exceto os macacos. Sente-se que o homem não está longe — sentenciou o pensador Cioran. Esse vínculo, no quesito ignomínia, ao qual fazia referência Cioran, se faz notar na nossa vida pública, onde a decência parece viver seus últimos momentos, resistindo em um ou outro indivíduo ou comunidade, que juntos, formam um arquipélago precário, prestes a ser submergido, para usar uma expressão que vem de longe, num mar de lama. Ufá, que frase... Não é preciso ser um Narciso às avessas, prestes a cuspir na sua imagem para chegar a essa conclusão. Nunca antes neste país, a divisa comtiana “ordem e progresso” esteve tão próxima de se tornar uma curiosidade desprovida de significado.

O “sucessão” – é “o” mesmo - de indivíduos medíocres, protagonizando uma sequência interminável de desmandos, que por fim acabam  absolvidos por aparentes ataques de imperdoável amnésia coletiva, não parece ter fim. “Vedoinadas”, “Zuleidadas”, “Valdomiradas”, “Mensaladas indigestas” e outras “Cachoeiradas” sucedem-se ad nauseam. O comentário oficial é que tudo será devidamente investigado, mas na prática, nada disso ocorre de maneira célere ou, pelo menos, perceptível. Dificilmente as investigações serão conclusivas. Não existe culpado, há apenas “supostos culpados”, logo não há punição, salvo raras exceções, portanto, vamos à praia aos domingos, ou até às sextas, dependendo do Estado. Aparentemente, talvez por falta de uma definição clara, não existe pecado do lado de baixo do equador; trata-se apenas de maquinações de uma elite inconformada sem motivo com “isso que, agora, está aqui”. Uma imprensa vendida estaria fazendo o possível para infernizar a vida de abnegados eleitos pelo povo e seus cúmplices, quis dizer aliados, que só não fazem mais  (ainda bem!) por ter que reagir às aleivosias de uma oposição insubmissa. Será? Salvo os portadores de antolhos ideológicos ou de consciências alugadas, alguém aceita essa patranha?

“Mas o que ocorre agora sempre aconteceu, caixa dois é algo mais antigo do que andar pra frente, o valerioduto já foi inaugurado na gestão passada, logo faz parte da herança maldita “ retrucam, à guisa de defesa, os “aloprados “ flagrados, as falsas vestais, os pudibundos de araque. E arrematam: “Vocês” fizeram igual. Melhor do que discorrer a respeito da desproporção entre “malfeitos” presentes e “deslizes” passados, é preferível dizer que não faz sentido essa divisão entre “nós” e “vocês”. A indignação é apartidária, assim como a deterioração dos padrões éticos não é privilégio exclusivo de um partido ou de uma coalizão. Trata-se de uma pandemia mundial, mas sua manifestação, ultimamente, extrapola todos os limites, cá, em Pindorama.

O misto de incompetência que se manifesta nos órgãos comprometidos pela política da entrega ao saque, dentro dos padrões de outorga em regime de porteira fechada a bem da governabilidade, associado à  ausência de escrúpulos, que somente a certeza da impunidade pode justificar, não deixa alternativa, a não ser a indignação de “tanto ver triunfar as nulidades”. Pior ainda, chega-se a descrer das virtudes da democracia representativa, atitude que pode levar a uma verdadeira tragédia.

A essa altura, já não importa mais haver provas acachapantes contra esse ou aquele homem público. Ele negará até a morte, tentará impugnar as provas e, caso não haja saída, contará com a morosidade de um Judiciário lento – aparentemente, por ser a justiça cega. Insurgir-se contra o Poder Judiciário e sua aparente anomia não é uma prática saudável. Preservar o tripé de Montesquieu ainda é a solução. Trocadilhos, supostamente engraçados, fazendo menção a um poder Juridículo são totalmente contraproducentes. Para os exaltados, recomenda-se com urgência uma providencial “frasectomia”. Por pior que seja o crime, “ não há causa indigna de defesa” na opinião de Ruy Barbosa.

No entanto, farta distribuição de narizes de palhaço — mesmo sem terem sido necessariamente superfaturados — remove, na prática, qualquer esperança de sair do atoleiro. Mesmo assim, é preciso acreditar. Dum spiro , spero - enquanto respirar, tenho fé. “Promessa é dúvida”, se me permitem.

Se os ventos favoráveis da economia mundial conseguiram até  bem pouco tempo, jogar poeira nos olhos do distinto público - it´s the economy, stupid , é a economia, bobão, frase lançada pelo assessor de Clinton, James Carville, nada justifica assistir bovinamente - num ambiente econômico menos favorável, desfavorável até -, ao contínuo processo de degradação que, longe de se atenuar, parece oferecer no relaxogozismo ao qual somos intimados a participar, a única saída desse imenso lodaçal.

Todos são inocentes até prova em contrário, mas nem todos são ingênuos a ponto de presenciar, inertes, a comemoração, com direito a top-top-top e gargalhadas, daqueles que confundem uma tragédia com um episódio de um inexistente terceiro turno.

Talvez não saibamos votar, mas aprenderemos, antes que seja tarde. Em qualquer país minimamente civilizado, nenhum movimento poderá  dispensar um aparato jornalístico, já dizia Lênin. Então, ao invés  de quebrar o termômetro que acusa a febre, antes de rotular de reacionários aos que se insurgem contra a podridão, a incompetência,  a ineficácia e a omissão,   é de todo desejável que a logorréia oficial e suas siglas maravilhosas seja substituída por  uma postura responsável, mesmo que isso implique em menos aplausos de platéias domesticadas. “A verdade está em marcha, nada a deterá”. Não é preciso ser Zola, para acreditar nisso.

 

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Crônicas
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 16h06
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Conversa (des)afinada

Anestesia ética

´´Todos os homens são bons.`` (UM CANIBAL)

 

 

Caramba, dirão, mais uma? Talvez o veio das variações sobre o mesmo tema não tenha se esgotado.   

Na teoria,  a prática é outra, ensina o bom Joelmir, mas não podemos deixar de lado uma verdade: A teoria é a consolidação da prática dos mestres. “Com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante”, filosofava Machado de Assis. O ensinamento mantém sua validade.

Parto de uma hipótese algo ousada e que poderá ser contestada por qualquer observador, por mais distraído que seja, de nossa cena – chamemo-la de política.  De acordo com essa ousadia teórica, todos os seres são fundamentalmente bons. Ou seja, quando pela primeira vez aboletam-se no poder, através dos votos ou mediante qualquer outro atalho constitucional: suplência, indicação, nomeação etc., chegam sem (muitos) vícios... É possível que um ou outro ascendeu ao cargo com o propósito de rápido e duradouro enriquecimento, mas prefiro alimentar a dúvida.

Aí, ocorre o fenômeno que apelidei de “anestesia do espírito ético”. Talvez haja outros nomes mais sugestivos, mas foi o que de melhor achei. Como poderia ser descrito sem fatigar o leitor?

É preciso ter em mente que, no Absurdistão, anualmente, há um notável momento de transição, quando se passa da era do silicone no Sambódromo, para a era da pedra lascada na política. A nossa despretensiosa análise cobre a tal fase II.

Vamos imaginar uma cena, que de extraordinário nada possui. A excelência recém-eleita senta, enxuga o suor, e procura saber como funciona a coisa. Descobre onde fica seu gabinete, quem são os colegas, quais os ritos mais importantes, o que é uma questão de ordem etc. Dizem-lhe que terá direito a diversas regalias. De tanto ouvir, passa a acreditar no que lhe sopram os que o circundam, munidos do argumento irretorquível: Aqui é assim. Inocente e jejuno (em ambos os sentidos que o Houaiss fornece, ou seja ingênuo e em jejum) assimila as informações como todo homo adaptabilis.

Pois já que aqui é assim, empregar filhos, filhas, netos, netas, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas sem omitir primos, primas, genros, noras e amigos de verdade –  e como surgem amigos nessa hora! - não pode ser errado. Se, por acaso tornou-se irregular, basta trocar chumbo com colega: eu emprego os teus, você, os meus. Não se fala mais em nepotismo. É uma forma criativa de aumentar o emprego, a renda, o consumo, o PIB. Patriotismo puro. Deve ser o certo. Por instantes paira ainda uma dúvida, uma espécie de tênue lembrança dos ensinamentos recebidos na escola e, quem sabe, até em casa. A hesitação logo cede lugar a determinação, aguilhoada pela percepção do tempo precioso perdido por conta dos, agora indesculpáveis, vacilos. Ora – raciocina a excelência - ninguém foi questionado até hoje. E acrescenta para tranqüilizar-se, só aqueles que fizeram mal feito os malfeitos!

Daí, começa o inexorável processo do entorpecimento das reações virtuosas do ser supostamente impoluto ao iniciar a caminhada. Um mandato mais tarde (pode acontecer antes), na mesma função, ou passando a exercer algum cargo similar, o gosto do melado torna-se irresistível e qualquer questionamento é relegado a um plano secundário! Aconteceu o entorpecimento, a anestesia. Daí para frente, não há mais limite.

Surge a possibilidade de edificar-se um prédio, construir uma ponte, uma central elétrica, uma estrada. O senso cívico brada, para consumo externo: “É para o bem do povo que me elegeu, vamos em frente.”. E eis que a excelência passa a se definir como “lutador”- não, não se trata de pugilista, judoca, ou praticante de alguma modalidade de arte marcial. Ele luta, enfrentando demônios ocultos – elites egoístas e reacionárias, ambientalistas fanáticos, eventualmente o bom-senso que se opõe à realização da tal obra. Nada o deterá. Tudo pelo bem do povo! Se a tal obra for superfaturada e disso resultar algo em benefício da família – e há algo mais sagrado que a família?- não há mal algum, na visão do “lutador”.

Com um pouco mais de vivência, é possível que a realização física da monumental iniciativa seja dispensável. Basta receber via caixa dois, ou três o quinhão a que faz jus todo emérito lutador. Durante essa pugna exaustiva, nada mais conveniente que, além da remuneração normal, se tire algum proveito da situação, ale de anuênios, biênios, quinquênios etc. Não há dúvida possível. Se aumentar o próprio salário pode parecer inadequado, será preciso que, junto com os colegas de insana labuta, se dê um aspecto legal aos aumentos auto-concedidos. Quanto a outras misérias, passagens aéreas, auxílios-moradia, uso de celular por terceiros etc. nem vale a pena comentar. Todos assim procedem é o refrão. Santo refrão, quanta verdade conténs! Tolo seria quem se desviasse dessa agradável linha de conduta. Pecunia non olet –  dinheiro não tem cheiro – já se dizia há milênios. Vespasiano teria sido o primeiro a empregar a fórmula, ao taxar a descarga de urina dos romanos na Cloaca Máxima. Nada como uma taxa! E quanto à cloaca... Há uns tolos entre as excelências, é preciso reconhecer, possivelmente em grande número, mas eles se calam. Por que se calam é a pergunta que fica aqui à guisa de exercício.

Vezes há, em que, por alguma injustiça cometida na partilha do butim, ou por despeito de algum derrotado na guerra das nomeações, a imprensa ávida por escândalos –  sim, essa imprensa maldita que só levanta miseráveis picuinhas em vez de enaltecer a edificação de uma sociedade melhor, como ensina a Novlíngua –  é abastecida com detalhes sobre o lado dos negócios cujo olor fere a sensibilidade dos imbecis pagadores de impostos. E, cúmulo da falta de patriotismo, essas notícias vêm a público. Em outras circunstâncias –  faz parte do jogo – órgãos fiscalizadores descobrem alguns produtos da criatividade dessa casta. Em função de desentendimentos, rivalidades ou rixas políticas, mais detalhes vazam. A mancha de ... óleo aumenta. O que fazer?

Uma vez descobertos, desmascarados, que seja, as excelências sofrem um choque: Primeiro a surpresa. Mas como? Então, “aquilo” não era legal? Cessa o efeito da anestesia e há uma breve tomada de consciência, para quem possui tal adereço.  Diante da constatação que, de fato trata-se de um delito, será preciso reagir.

Entra em cena a ‘valsa em três tempos’.

Antes da procura de alguma desculpa, o procedimento usual consiste em negar com graus variáveis de indignação – de acordo com o talento de cada um. Negar, negar sempre, jogar culpa na imprensa, tornar a negar, mesmo diante de evidências esmagadoras. A seguir, subir à tribuna mais próxima e invocar um passado de glórias, um currículo que pela sua riqueza demonstra, à saciedade, a leviandade das infâmias levantadas por inimigos... do povo, naturalmente. A confraria –  dos cidadãos mais iguais que a patuléia ignara –  reage.

Suponhamos que, por alguma obra do destino e cúmulo dos azares, essa reação não sepulte as acusações. O ser anestesiado, já bem acordado, passa à etapa seguinte. “Eu não sabia, fui traído!” E eis que, de repente, não mais que de repente, constatamos que os eleitos do povo constituem um bando de seres distraídos, talvez amnésicos, incapazes de se recordar do que aconteceu ou caso guardem de tudo uma vaga lembrança, ostentam compreensível indignação e dirigem sua ira em direção aos que, sem seu conhecimento, aloprados, negligentes, relapsos ou mal intencionados mesmo – em se tratando dos “outros” vale qualquer epíteto – perpetraram atos que deixam trêmulas de indignação as excelências. Com algum atraso constatam: Tudo vale a pena se a alma não for pequena... desde que não sejamos pegos.

O infortúnio dessa brava gente pode não terminar. A voz rouca da plebe clama por justiça.  Entra em cena a arma letal:.”Todos procedem assim, desde tempos imemoriais”. Existe desculpa melhor? Se esse recurso não levar à absolvição automática, a filosofia ocidental perderia seus esteios.

Muitos sabem das estripulias dos outros e guardam a preciosa informação para usá-la em boa hora. Fulano conhece as proezas de beltrano, até as tem imortalizado em gravações,  mas não ousa citá-las, pois sabe que o outro sabe que ele sabe que o outro sabe que ele sabe de tudo e, acuado, o outro poderá pagar em igual moeda. E essa chantagem atômica, como nos saudosos tempos da Guerra fria, paralisa de vez qualquer apelo à decência, pois todos se sabem cobertos pela prática comum da gatunagem. Será que estamos falando em hábitos ou de infelizes exceções? Os risonhos abstenham-se! 

Alguém falou em rabo preso? É claro que não. Estamos falando de mamíferos superiores desprovidos de cauda. Ou, se preferirem, da gloriosa confraria dos possuidores de telhados de vidro.

Seguramente, o conceito de, pulchrum et honestum, bonito e honesto não está em alta, no momento, se bem que o problema maior não parece ser a feiúra.

Isso para não mencionar a competência, atualmente em férias.

 

Do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Crônicas
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h13
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´´Como se fosse sério.``

Lucy no simulador

 

 

O treinamento de Lucy assumiu novas feições. Segundo seus mentores, ela deveria passar por algumas sessões de análise, antes de continuar seu treinamento. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Lucy se viu obrigada a passar algumas horas deitada num divã tendo de responder à angustiante pergunta:  “No que está pensando?” O interlocutor dirigiu com habilidade essa terapia relâmpago, ao término da qual, Lucy percebeu que era importante, mais ainda, FUNDAMENTAL separar-se do seu companheiro. Ficou angustiada ao constatar que não tendo companheiro, chegara a uma conclusão absurda. Guardou para si essa revelação e declarou a quem quisesse ouvir que a terapia a transformara num fóssil novo. Um dos guias, fã declarado de Melanie Klein recomendou-lhe a leitura do “Mito de Sísifo” e a nova vida seguiu seu ritmo.

O próximo desafio consistiu em colocar Lucy dentro de um simulador de última geração, de extrema sofisticação, uma vez que se tratava de um dispositivo virtual, cujo conteúdo era 75% nacional.

– Lucy,  concentre-se, em hipótese alguma não fique diluída; você está agora num reino encantado, como nunca antes na história da humanidade houve igual. Para deixar-lhe algumas referências, usaremos nomes fictícios nessa terra do Real, de maneira a podermos ter pontos de apoio nas situações que iremos examinar. Isso seria desnecessário, caso seu poder de abstração fosse maior. Quem sabe numa próxima etapa seja possível usar apenas símbolos. Está pronta?

– Estou.

– Bem, aqui está uma carta hipotética.

– Como hipotética?

– É que ela jamais foi escrita, mas se o fosse, teria esse aspecto. Começa com “Mon cher Guido” e a assinatura poderia ser da senhora Lagarde do FMI.

– Fora FMI! Yankees, go home – bradou Lucy.

– Calma, Lucy. Não se exalte. A passeata pacífica foi agendada para mais tarde. Consulte o Facebook.

– É possível ter acesso ao texto?

– Of course, como diria o ministro Aldo, amante reprimido de estrangeirismos. Na carta, Christine Lagarde comenta uma sugestão de revisão metodológica do cálculo da bruta dívida de um país, perdão, dívida bruta, o trocadilho consta da carta. O achado teórico consistiria em desconsiderar os títulos do Tesouro emitidos, porém na carteira do Banco Central por não terem ‘natureza fiscal’. Seriam meros papeis reais ou escriturais sem importância alguma.

– E daí? – perguntou Lucy reprimindo um bocejo.

– Daí, nada. Na cartinha hipotética há uma flechinhas, embebidas em curare, de pura ironia e para ser Franco (Gustavo), apesar de ser dirigida ao Guido, tem por alvo um senhor com nome de eletrodoméstico, muito famoso em terras teutônicas por causa de uma cançãozinha famosa: Ach du lieber Augustin.

– Está no iutubi?

– Decerto. Não fosse a alusão a um certo marechal De Gaulle, a carta além de hipotética seria perfeita. Mas De Gaulle, apesar de sua altura, passou por este planeta apenas como general.

– Ahammm.

– Voltando ao senhor eletrodoméstico – já não falamos mais da carta – ele se notabilizou por outro conceito: a velocidade dos dividendos, aquele saque sobre o futuro para costurar o tal superávit primário.

– De fato, o conceito é interessante. Se a velocidade dos dividendos tender à velocidade da luz – o C de Einstein – a massa dos dividendos tenderia ao infinito, possibilitando construir uma rede de total segurança fiscal para qualquer país. Trazer de volta do futuro parece um achado mais para Spielberg do que para Einstein.

– Bravo Lucy!

Nesse momento, ocorreram algumas oscilações do campo eletromagnético do simulador e Lucy sentiu um estranho formigamento nos ganchos de titânio – aprovados pela Anvisa – que serviam para garantir a harmonia do seu corpo tão penosamente reconstituído. Naquele momento, numa tela imaginária apareceu projetada a frase: “Lula não voltou porque não saiu!”  A frase piscou por algumas frações de segundo, o suficiente para ser lida, antes de desaparecer no vórtice ideológico, com o qual todo simulador virtual está equipado. Lucy deduziu, de imediato, que estava diante de uma ilustração do princípio da incerteza de Heisenberg.  Mesmo sem ter conhecimentos suficientes, ela se recordava que em essência o bom Werner demonstrara ser impossível conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. Generalizando, Lucy percebeu que no caso de um ser humano extraordinário, como modestamente aquele senhor aceitava ser qualificado, ele poderia estar permanentemente onde fosse possível invocar sua presença. Logo ter saído ou não ter saído passava a ser um conceito irrelevante.

Mais ainda, Lucy percebeu que poderia associar a frase da gerente do regente ao gato de Schrödinger.  Para não fatigar a mente dos leitores a discussão desse  paradoxo fica a título de exercício para os (poucos) interessados.

Mais uma vez houve uma flutuação de energia; obviamente, não se tratava de um apagão, eis que naquele ponto do espaço n-dimensional não haveria a menor possibilidade de tal ocorrência, somente possível em tempos que, segundo alguns historiadores, haviam deixado uma herança maldita.

Lucy percebeu que fora abandonada. Enquanto aguardava a vinda do seu mentor, resolveu folhear um livro virtual de contabilidade criativa. Lendo diagonalmente, identificou a essência dessa novel disciplina. Para se chegar a um resultado desejado, a condição necessária e suficiente consistiria em desconsiderar os dados, que por mais reais que fossem, não deveriam ser levados em conta, para não invalidar o tal resultado desejado – com o perdão da repetição. Tudo uma questão de vontade política. Assim, para se chegar a um superávit primário do tamanho prometido, bastaria eliminar dos cálculos investimentos benditos. Como corolário: Se isso não fosse suficiente, poderiam ser adicionados variáveis ‘dummy’. Ou seja, eliminar o indesejável e somar os tais dividendos rápidos, por exemplo.

Politicamente, essa abordagem possuía um subproduto. Para garantir uma avaliação de 100% de Ótimo e bom, seria necessário (e suficiente) eliminar os Regular, ruim e péssimo. Encantada com essa conclusão, Lucy acionou o assento ejetável – virtual naturalmente – e saiu do simulador.

 


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br 



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h37
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Não são apenas os 39 ministérios...

Tout est perdu fors  l´honneur

 

  ´´Provavelmente, esse texto que resvala no politicamente incorreto, irá me valer algumas vaias, mas isso não importa``.

Em 24 de fevereiro de 1525, Francisco 1° rei da França, foi derrotado na batalha de Pavia. Aconselhado a desistir do cerco da cidade, preferiu seguir o conselho de Bonnivet: ”um rei de França não recua diante dos inimigos e não altera seus projetos de acordo com o capricho deles” Derrotado – o exército francês perdeu mais de 10.000 combatentes – ferido na mão no rosto e na perna,  Francisco 1º resolveu se entregar. Perguntado se estava ferido, respondeu orgulhosamente  “Non...guère”. (Não, nem um pouco). A título de curiosidade, naquela batalha pereceu La Palisse, precursor do famoso conselheiro Acácio – fala-se em verdades acacianas ou lapalissadas, para designar truísmos.

Na noite da batalha, já prisioneiro, numa mensagem enviada à sua mãe, Luísa de Saboia, Francisco escreveu a famosa frase: Tout est perdu fors l´honneur” (tudo está perdido salvo a honra). Pano rápido. Vamos avançar algo como meio milênio.

O clamor das ruas agita o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. Abundam interpretações. Aparentemente sem saber como agir, sem ter como jogar a culpa no governo do príncipe dos sociólogos – procedimento usual, mas ineficaz nesse momento, o governo reage como pode.

Após breve resistência: ...”não recua diante dos inimigos e não altera etc.”, cede. A tarifa dos transportes – estopim da revolta- é reduzida. Faz sentido, afinal se há serviço de saúde gratuito, por que não transporte mais barato... desde que se saiba de onde sairão os recursos.

Mas a pauta dos manifestantes, apesar de difusa, é muito mais extensa. O descontentamento gerador de queda da popularidade da presidenta possui inúmeros vetores. A corrupção, o desperdício de recursos públicos, a péssima qualidade do serviço de saúde, da educação, da segurança, a inflação e por aí vai. Não faltam vilões. Sobra indignação.

Num primeiro momento, a presidenta propõe cinco pactos, diante de uma plateia disposta a bater palmas ante qualquer fala, sem levar em consideração o fato de ser um pacto “um ajuste, contrato, convenção entre duas ou mais pessoas” , de acordo com o dicionário Houaiss.

O efeito é mínimo.

Segue-se uma série de propostas desde a convocação de uma assembleia constituinte para solucionar a reforma política, adormecida há décadas, e convergindo, após a descoberta de ser essa medida inconstitucional, para um referendo, ou seria plebiscito? Remédio discutível já que visa a resolver um problema importante, porém não o mais premente.

Criou-se uma diversão – discute-se a viabilidade de a medida já influir nas eleições de 2014. Será que num universo no qual uma percentagem avassaladora é incapaz de interpretar um texto simples poderá decidir se deve ou não haver financiamento público de campanha, ou se o voto deve ser distrital misto, bastando para tanto um pronunciamento oficial dirigido aos súditos? Isso melhorará a qualidade dos serviços em estado calamitoso, garantirá a segurança dos sitiados, não em Pavia mas em suas próprias residências?

Será que nossa balança comercial melhorará com isso? Será que isso nos levará a acumular um superávit nominal- ideia rudimentar já se disse - sem acrobacias contábeis?

O discurso oficial espalha otimismo. “Não há hipótese de sermos complacentes com a inflação” O diabo é que o teto já foi furado. Nunca antes estivemos em melhor situação, que só não é melhor devido a fatores externos, tão distantes do nosso adorável umbigo. Sua Excelência o Ministro da Fazenda esfalfa-se em discursos panglossianos (que , aparentemente, lhe foram ditados), nos quais possivelmente esteja acreditando – é dos poucos se não o único. Repudiamos o tsunami financeiro e agora, ante a escalada do dólar, queremos o tsunami de volta, desbaratando as barragens erguidas pouco tempo atrás.

Trocamos um tripé por uma matriz económica. Só a imprensa golpista...e a opinião pública parecem não enxergar o mar de rosas que nos cerca.

Falamos em planos de mobilidade urbana e simultaneamente estimulamos a compra de veículos para entupir as artérias congestionadas das cidades. A frota demanda uma gasolina que não temos já que nossa autossuficiência é meramente retórica.  Seguramos o preço dos combustíveis – não congelamos, Deus nos livre, e a Petrobrás que se vire. Falamos em austeridade, enquanto fluem recursos para o BNDES, Caixa e programas do tipo minha geladeira nova minha vida. Recursos que não caem do céu é bom que se diga. Sacamos sobre o futuro, antecipando dividendos de estatais e recursos que Itaipu proporcionará até o fim do contrato. tentando melhorar o presente. Quanto ao futuro, como Scarlett O´hara , pensaremos amanhã.

E agora, chegamos ao politicamente incorreto.

A percepção da realidade motivou um movimento de força e extensão insuspeitável.

A revolta procede, mas é preciso discutir essas manifestações ditas pacíficas.

Decerto não se faz omelete sem quebrar ovos, mas o lojista cuja loja foi depredada há de perguntar: Mas logo os meus?

De fato, trata-se de algumas minorias, de aproveitadores que pegam carona nos movimentos legítimos, assim como deputados pegam carona em MPs para inserir pleitos de sua conveniência. São aqueles que atiram a primeira pedra, ou eventualmente a primeira bomba. De fato, a reação da Polícia foi exagerada, mas será que naqueles casos não houve também minorias irresponsáveis. Nem todos os integrantes da força policial leram Kant na sua versão original.

Vale, porém, questionar os procedimentos da imensa maioria pacífica. Seria absurdo qualificá-la de exército de Brancaleone. Tem-se um gigantesco ‘Cansei’ apartidário. Um ‘saco cheio’ geral. Um movimento legítimo.

Por mais legítimo que seja, é razoável paralisar por longas horas cidades inteiras? Faz sentido bloquear avenidas importantes acabando com o direito de ir e vir dos cidadãos?

Claro que não faz sentido que as manifestações ocorram no Sambódromo, mas deixar uma pista livre, permitindo passagem de ambulâncias, seria pedir demais?

Quando se trata de dezenas de milhares de manifestantes, apressadamente qualificados de ‘milhões’ , ainda faz sentido, mas um grupo de algumas centenas bloquear o acesso ao aeroporto de Cumbica é razoável? Isso mais parece uma arbitrária penhora on-line das nossas estradas e avenidas.

Finalmente, esses movimentos, que serão ainda objeto de estudo, mobilizados através das redes sociais não possuem uma liderança definida que possa negociar com o governo uma solução para os inúmeros problemas que nos afligem.  Quem irá sentar á mesa com um governo atônito e discutir algo mais concreto que frases e promessas bombásticas?

Voltamos ao ponto inicial desse comentário. O governo poderá afirmar, contrariamente ao que escreveu Francisco 1°: “Nem tudo está perdido’. Certo, mas a honra?

 

 

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor:  asolo@alexandru.com.br" target="_blank"> asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 15h02
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Conversa (des)afinada

E la nave va.

 

 

Cidades em polvorosa, manifestações, depredações, reações desproporcionais da polícia. Um clima de 1968, ou de tomada da Bastilha?

Perguntem a um desses estudantes (viramos um país de estudiosos) por qual motivo estavam lá? Não era pelos 10 centavos de aumento – estudante paga meia, quando pega bus. Será que era pelo desperdício/roubo/superfaturamento com a construção dos elefantes brancos dedicados à prática do ludopédio? Ora, mas isso era sabido há mais de ano! Estamos diante de um movimento espontâneo, ou uma simples massa de manobra, bucha de canhão orientada por interesses outros. Quais? Cui prodest? Arrancar lixeiras nas ruas, quebrar vitrines agregava sentido àquelas manifestações? Mais importante – além de deixar claro o descontentamento, qual o resultado prático? Bus de graça? Isso já foi pensado na gestão Erundina. Mas tudo tem custo, já que nem almoço grátis há, exceto no dia da pendura.

Vamos tirar dos ricos? Bonito. Mas façamos uma conta. O custo disso em São Paulo, por baixo, será de 10bi por ano. Vamos tirar do IPTU dos 'ricos'. Será que há 500.000 imóveis considerados 'ricos'. Bem isso daria – por baixo, como disse – 20.000 R$ a mais por residência. É mole? Sem contar que isso só poderá acontecer no ano que vem. E até lá? De onde sai a bufunfa? Da Saúde que está esse espetáculo? Da Segurança que nos faz prisioneiros em nossas residências? Ah... sim... da educação... Bem, manifestar é um direito. O resultado outro que a melhora do condicionamento aeróbico dos participantes fica sob uma belo ponto de interrogação. Sejamos otimistas. As instituições recuperarão sua credibilidade, como por um passe de mágica.

Não há como disfarçar. Há uma enorme insatisfação, motivada por comichões no órgão sensível: o bolso. Uma degradação das ‘condições de contorno’ e não terrorismo econômico promovido pela máfia da informação. A inflação está aí. As estatísticas que serão publicadas em julho mostrarão que a inflação furou o teto de banda. A Coca cola sobe no supermercado, os tomates deixaram de ser o único vilão. O senhor otimismo – que atende pelo nome de Guido, ou Guidinho como é chamado pela nossa Dama de ferro continua desempenhando um papel cada vez mais ridículo. A credibilidade dos seus prognósticos derrete como a cotação do Real. Ou como o saldo comercial? Ou como o índice Bovespa? Não se trata de chamar alguém do banco de reservas. Enquanto prevalecerem truques contábeis, não haverá melhora. Em recente artigo, uma Delfinetada, de autoria insuspeita do antigo tsar (é tsar, não czar!) da nossa economia pede mais seriedade na política fiscal.

Lances ridículos se sucedem como a recente ficha suja da Petrobrás, que a impediria de importar e exportar. Um sopro de bom senso anulou essa aberração – uma constituição de dívida, contestada sem que se chegue a uma definição final. Sem contar que metade dessa dívida de 7 bi e do governo que possui o controle da empresa para o governo que através da Receita morde o próprio rabo.

Segundo dizeres de nossa Presidenta, com a gestão petista o Brasil se encontrou. Esperemos que sim! Ou será que se encontrou numa confusão?

Essas manifestações – diferentes das vaias da abertura da Copa das Confederações, geradas pela zelite que podia se dar ao luxo de pagar ingressos – parecem colocar em dúvida mais um discurso triunfalista. Por sorte, no litoral do patropi não há icebergs. Nosso Titanic pode navegar ao som da orquestra de incansáveis áulicos.

Estar descontente consigo mesmo é fraqueza, estar satisfeito é loucura – escrevia Baltasar Gracián séculos atrás.

A piada final, coroando esse “chienlit”, termo ressuscitado por De Gaulle é “a resposta virá nas urnas”. Que resposta e quais urnas e mais grave, quais candidatos?

 


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br



Categoria: Política
Escrito por Alexandru Solomon, escritor às 12h51
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